terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Peixinho Doido

Há muito tempo atrás quando terminei minha primeira faculdade de Administração, tinha uma empresa de representação, uma namorada, um carro, acabara de me formar, ou seja, tinha tudo para começar uma vida boa, digamos padrão.
Depois que li este texto, repassado pela minha professora de comunicação, mudei totalmente minha vida. Vendi meu carro, peguei o dinheiro e me joguei no mundo em busca de experiências, deixei tudo que tinha para trás para viver o inesperado, o novo. Fui viajar o mundo por um ano e meio.
Procuro este texto há muito tempo e somente hoje achei na internet. Lendo-o agora novamente, me emociono ao ver que o vivi literalmente. Ele mudou minha vida e espero que também toque a de vocês e que novos peixinhos doidos nasçam pelo mundo e descubram que a vida pode ser muito mais do que achamos apenas vivendo como os outros.
Apenas lembrando e comparando com os pensamentos de Nietzsche, nos textos sobre Zaratustra, percebam que há muita semelhança entre eles.
O mais importante na vida é o querer.

Texto:

Era uma vez um peixinho que vivia em um aquário e, ele pensava que o aquário era o mundo. O pai, muito rico explorava as algas do fundo do aquário. A mãe era uma peixinha muito conhecida, por isso ele e os irmãos iam herdar as riquezas do pai.
Uma noite, ele acordou e perdeu o sono. Só que desta vez ao invés de ficar pensando na vida, resolveu dar uma volta e, então, descobriu que o mundo não era só um aquário; havia um rio que se perdia no infinito.
Ai o peixinho ficou muito grilado e acordou os irmãos para contar sua descoberta. Cada um achou uma coisa: o primeiro achou que ele estava com febre, o segundo que ele tinha bebido, o terceiro não achou nada, e o último achou que ele tinha ficado louco.
E contou pro pai (peixão preocupado) que conversou com a mãe (peixinha nervosa) e resolveram levar o filho a um peixiatra. Mas o peixiatra era daqueles que costumam jogar os livros na cabeça e no coração dos peixes; rapidamente achou que ele estava maluco mesmo, e o internou em uma clínica peixiátrica onde ele tomou muitos remédios para que continuasse a acreditar que o mundo era só um aquário mesmo.
O que é pior, ele quase acreditou que estava louco mesmo, mas conseguiu fugir da clinica e todas as noites ia namorar o mundo através do vidro.
Como era muito religioso resolveu procurar o grande sacerdote do aquário (peixão barbudo). Mas o sacerdote também sabia que o mundo não era só um aquário; não que ele tivesse visto, mas porque estava escrito em um daqueles velhos livros onde os sacerdotes aprendem coisas. Entretanto, por saber que todo aquele que pensa e sente de uma forma diferente dos outros pode sofrer muito, o sacerdote fez tudo para convencer o peixinho a desistir daquelas idéias; lhe ensinou um monte de rezas e lhe deu um terço cheio de conchinhas coloridas para que não pensasse mais nestas coisas. Aí o peixinho teve a sua segunda grande descoberta; não adiantava ficar no aquário reclamando dos outros; se ele não estava satisfeito, que fosse embora. Então, todas as noites, subia um pouquinho até que um dia, ficou deitadinho em cima do vidro olhando para frente e para trás. Quando olhava para trás pensava: este aquário é tão bom! Além do mais eu já sei quase tudo. Mas este rio me tenta porque eu não sei nada dele! De repente, Ploft! Até hoje não se sabe se pulou, se caiu, se escorregou e já estava do outro lado podendo ir ou voltar. Então, olhou para a mãe com a sacola do supermercado, o pai com sua pasta de homem importante, os irmãos indo para a escola e, se mandou...
O começo foi difícil. Ele foi aprendendo a se esconder, descobriu que ficar com raiva não era pecado mortal, como haviam lhe ensinado no aquário. Às vezes era preciso brigar, para sobreviver. Um dia ele fez um amigo e então se descobriram e seguiram a caminhada sem destino. Até que um dia o amigo olhou para um ponto da margem do rio e disse: vou ficar aqui, porque o meu objetivo era chegar até aqui. Mas o do peixinho não era; para falar a verdade ele não sabia o que era ter um objetivo. Aí descobriu que ia perder um amigo e ficou muito triste. Mas depois descobriu que ninguém perde ninguém; podia ser que um dia o amigo estivesse muito na sua frente, podia ser que ele, o peixinho voltasse. Podia ser tudo. Então como podia ser qualquer coisa, ele se foi.
Até que um dia ele encontrou uma peixinha. E, namoraram em cima dos corais, se descobriram e se foram. Até que uma noite a peixinha se fez bem bonita, botou vestido longo da cor das Águas e sentou-se em sua frente, olhando no fundo do seu olhar. Eles já se conheciam tanto que não precisavam mais das palavras para se dizer, e no silêncio ela lhe disse: - Sabe? Acho que a gente vai se separar, porque pelo menos hoje você é um poeta e eu sou uma peixinha; e o que eu queria é que a gente se casasse, que você comprasse tinta para eu pintar minhas escamas e fizéssemos uma casa bem bonita onde recebêssemos os amigos e pudéssemos criar nossos filhos. Mas se você ficasse porque eu estou pedindo sei que você seria um enfeite na minha sala. E o peixinho em silêncio disse: - Sabe? O que eu queria era que você seguisse comigo na viagem; podia ser que daqui a um segundo a gente se casasse e tivesse uma casa; mas se você fosse porque eu estou pedindo, será¡ que seria bom?E eles se separaram se amando.
E o peixinho chorou; descobriu que peixe que chora nem sempre é frágil, como lhe haviam ensinado no aquário; que às vezes é preciso chorar. E foi.
Até que um dia descobriu que o mundo não era só um rio, que o rio dava para o mar. No começo sentiu paz. Como é que peixe de Água doce vai viver na Água salgada? Enfim ele tinha chegado a um limite. Mas depois foi ficando tenso, e começou a estudar muito como ele era feito por dentro. Pesquisou, aprendeu até descobrir que as coisas podiam mudar, saltou para o meio do oceano.
Então, namorou a sereia, apaixonou-se por uma concha, brincou com a estrela do mar, e entrou na boca do tubarão, até que um dia descobriu que o mundo não era só Água. Havia o resto. Novamente paz! Como é que peixe vai viver no resto? Mas depois foi ficando novamente tenso, e começou a estudar como é que ele era feito por fora. Estudou, pesquisou muito, até que descobriu que poderia se transformar num passarinho.
Aí sentou-se em cima da nuvem, voou num raio de crepúsculo, bebeu uma taça de arco-íris, ganhou, perdeu, fez ninhos, desfez, até que um dia apaixonou-se por uma bolinha de sabão.
Ele vinha voando e ela vinha dançando, refratando a luz nas suas cores. Mas no momento que eles iam entrar um no outro, os dois tiveram medo. Cara, acho que não vai dar, porque eu tenho um dono; é um passarinho que vem me ver todos os anos, quando chegam às aves de arribação. Eu também estou com medo; afinal de contas também deixei uma peixinha no meio do caminho. Mas olhe só! Se minha peixinha ficou lá e o seu dono só vem daqui a um ano, porque a gente não pode namorar agora? Ah! Acontece que o peso dele eu já conheço e sei que quando ele entrar dentro de mim e eu dentro dele nós não vamos nos arrebentar. Mas eu não conheço o seu peso, nem você conhece o meu; pior que isto tenho muito medo que a gente se arrebente todo de tanta surpresa.E aí o peixinho e a bolha de sabão descobriram que, às vezes existe muito medo. E ele se foi.
Até que um dia descobriu que o mundo é muito maior que um planeta; novamente a paz. Como é que um peixe pode voar fora do planeta? Novamente tensão. E ele voltou a pesquisar muito, para saber como seria possível viver fora do mundo. Então fabricou uma roupa de aeronauta e pulou para o meio das estrelas.
Conversou com o sol, namorou com as estrelas cadentes, andou a cavalo num cometa, até que, um dia descobriu que era o rio, o aquário, a bolha de sabão, que era tudo. E viveu assim um segundo ou mil anos-luz, até que um dia sentiu uma enorme tensão, pois descobriu que ser tudo não é a última coisa. Então: Era uma vez um peixinho que morava num aquário e acordou assustado de tanto sonho!
O Peixinho Doido, de vez em quando, passa pela minha cabeça e pelo meu coração. Ele me conta que todo mundo é capaz de perceber suas passagens, mas como a maioria das pessoas vive muito ocupada com as suas ambições e com os seus sofrimentos, pouca gente se descobre.
Na última vez, ele me contou que sua viagem solitária lhe ensinou muito, mas agora ele está em busca de algo novo: ele quer companheiros. Mesmo sabendo que às vezes os peixes e as bolhas de sabão às vezes sentem medo!
Autor: Aluizio Collares

Seguem abaixo as sequencias do peixinho feitas por mim:

2) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/search?q=peixinho+doido

3) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/2010/03/peixinho-esquentado.html

4) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/2010/04/peixinho-bobo.html

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo IV

Texto na Integra:
IV
Mas Zaratustra contemplava, admirado, a multidão e lhe falou assim:
“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo. Perigosa a travessia, perigoso o percurso, perigoso olhar para trás, perigoso o tremor e a paralisação.
A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.
Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem.
Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente, e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem.
Amo os que não se satisfazem em procurar além das estrelas uma razão para serem declínio e oferenda, mas que, ao contrário, se sacrificam a terra para que esta um dia se torne a terra do super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e quer conhecer para que um dia o super-homem viva. E quer assim o seu próprio declínio.
Amo o que trabalha e inventa para construir a morada do super-homem, e prepara para ele a terra, os animais e as plantas. Pois assim quer o seu declínio.
Amo o que ama a sua própria virtude, pois que a virtude é vontade de declínio e flecha do desejo. Amo o que não guarda para si nem uma só gota de seu espírito mas quer ser inteiramente o espírito de sua própria virtude. É dessa forma que ele, como espírito, atravessa a ponte.
Amo o que faz da virtude inclinação e destino, pois ele, por amor à sua virtude, quer viver ainda e não mais viver.
Amo o que não quer virtudes em demasia. Uma única virtude é mais virtude do que duas, pois ela é o nó mais forte onde se ata o destino.
Amo o que prodigaliza sua alma, e que, ao fazer isto, não visa á gratidão nem ao pagamento; pois sempre dá e nada quer em troca.
Amo o que se envergonha quando o dado cai a seu favor, e então pergunta: serei um trapaceiro? – pois é para sua ruína que ele quer se encaminhar.
Amo o que antecede com palavras de ouro os seus atos e sempre cumpre mais do que promete; pois ele quer o seu declínio.
Amo o que justifica os que serão e resgata os que foram; pois quer perecer por aqueles que são.
Amo aquele que pune seu Deus porque o ama; porquanto só poderá perecer pela cólera de seu Deus.
Amo o que, mesmo ferido, tem a alma profunda, e que um simples acaso pode fazer perecer. Assim, ele atravessa de bom grado a ponte.
Amo aquele cuja alma transborda e a tal ponto se esquece de si que todas as coisas nele encontram lugar. Assim, todas as coisas se tornam seu declínio.
Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo uma a uma da negra nuvem que paira sobre os homens; anunciam a chegada do raio e perecem como anunciadores.
Vede, sou o anunciador do raio, uma gota pesada dessa nuvem. Mas o raio se chama super-homem.”

Comentários:
Viva Nietzsche, viva.
Precisamos destruir este homem, eliminá-lo, decliná-lo, para posteriormente construir outro, sem esta moral dualista e que afasta o homem de seu eterno recomeço.
Temos que explicar melhor a intenção de Nietsche, ele fala o tempo inteiro em declínio, não de forma negativa, ele apenas quer desmoralizar o homem existente para depois criar algo novo. Este novo homem, chamado de super-homem, também não tem uma verdade uniforme, para o autor este homem depende apenas de suas vontades para atingir suas metas. Nietzsche não busca uma meta ou verdade, para ele o importante é o querer, a vontade individual de cada um, aonde vai chegar? Não importa, o homem é ponte, não meta. Não existem padrões, nem verdades absolutas.
O importante agora é que o homem não seguirá mais nenhuma moral ou verdade, ele será um ser em eterna transmutação, querendo sempre algo novo, criando sempre algo novo, este é o novo homem, o super-homem.

A criação de uma nova metafísica
O Deus de Zaratustra não é o Deus do sofrimento, da culpa, não é o Deus judaico-cristão.
O Deus do autor é o da vontade afirmativa e criativa, com vontade de crescimento, de potência, de expansão, de afirmação de si mesmo, da espontaneidade, um Deus sem intenções nem morais nem lógicas.
Vejam as diferenças, Nietzsche não era ateu, ele muda os adjetivos do Deus conhecido e propõe um novo, ele cria uma moral, não é amoral.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo III

Texto na Integra:
III
Assim que chegou à cidade mais próxima, na orla da floresta, Zaratustra encontrou muita gente reunida na praça principal, para ver um funâmbulo que fora anunciado. E Zaratustra dirigiu-se assim à multidão:
“Eu vos proponho o super-homem. O homem é algo a ser superado. O que fizeste para isto?
Até então, todos os seres imaginaram algo superior, acima de si mesmos, e vós quereis ser acaso o reverso desse grande fluxo, preferindo antes voltar ao animal do que chegar ao super-homem?
O que é o símio para o homem? Objeto de riso ou ignomínia. E é justamente isso que o homem deve ser para o super-homem: objeto de riso ou ignomínia.
Já fizeste o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda há muito de verme em vós. Outrora fostes símios, contudo ainda hoje o homem é mais símio que qualquer dos símios.
O mais sábio entre vós não passa de um conflito, um ser híbrido entre a planta e o espectro. Porventura ordenei que vos tornásseis espectro ou planta?
Vede, eu vos ensino o super-homem!
O super-homem é o sentido da terra. Fazei dizer à vossa vontade: que o super-homem seja o sentido da terra!
Eu vos conclamo, irmão, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças ultraterrenas! Não passam de envenenadores, conscientes ou não.
São gente que despreza a vida, seres agonizantes, igualmente intoxicados, dos quais a terra se cansou. Que eles, pois, desapareçam!
Outrora, a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus está morto, e com ele morreram seus detratores. O terrível, agora, é injuriar a terra, pois seria dar mais valor às entranhas do insondável que ao sentido da terra!
Outrora, a alma olhava o corpo com desprezo, e esse desprezo era o que havia de mais sublime. A alma queria o corpo magro, horrendo, faminto. Pensava, assim, sobrepor-se a ele e á terra.
Oh, mas essa alma era também magra, horrenda e faminta, e a crueldade era toda a sua volúpia!
Mas vós, irmão, dizei-me: que vos informa o vosso corpo sobre vossa alma? Não é ela miséria, imundície e reles bem-estar?
Em verdade, um rio imundo é o homem. E só o mar pode absorver um rio imundo sem macular-se.
Qual o mais sublime experiência que poderíeis viver? É a hora do grande desprezo. Essa hora em que mesmo para vós a felicidade se transforma em náusea, e bem assim vossa razão e vossa virtude.
A hora em que dizeis: “Que é afinal minha felicidade? Simplesmente miséria, imundície e reles bem-estar. Ora, minha felicidade devia ser a própria justificação de minha existência!”
A hora em que dizeis: “Que é afinal minha virtude! Ela ainda não me fez revoltado. Como estou farto de meu bem e de meu mal” aqui só há miséria, imundice e satisfação grosseira!”
A hora em que dizeis: “Que é afinal a minha justiça? Não me sinto um carvão em brasa. Ora, o justo é um carvão em brasa!”
A hora em que dizeis: “Que é afinal a minha compaixão? A compaixão não é a cruz onde se prega aquele que ama os homens? Ora, minha compaixão não cruscifica!”
Já falastes assim? Já gritasse assim? Ah! Por que ainda não vos ouvi gritar assim?
Não é vosso pecado, mas vossa medida que brada aos céus, é vossa avareza no pecar que brada aos céus!
Mas onde está o raio que vos virá lamber com sua língua? Onde a loucura de que deveríeis inocular-vos?
Vede, eu vos ensino o super-homem: ele é esse raio, essa loucura!”
Ao terminar Zaratustra de falar assim, alguém exclamou na multidão: “Já ouvimos demais sobre o funâmbulo, queremos agora vê-lo!” E toda a multidão se riu de Zaratustra. Quanto ao funâmbulo, acreditando que estas palavras lhe dissessem respeito, logo se preparou para iniciar o seu trabalho.

Comentários:
Não posso deixar de falar sobre minha admiração deste capítulo de Nietzsche, somente ele poderia descrever tão bem o que é uma vida religiosa que transforma o homem em mero expectador do mundo e da vida.
Com isto ele anuncia um novo homem com as responsabilidades da superação e da direção de sua própria vida. A chegada do super-homem é o clímax do pensamento de Nietzsche em Zaratustra.
O que é afinal o super-homem? Vamos estabelecer algumas características do dele de acordo com o retirado do texto acima:
Ø Não crê no além, recusa a existência de Deus;
Ø Acredita na Terra;
Ø Recusa o dualismo entre bem e mal, céu e terra, mundo divino e terreno;
Ø Diz sim a vida, sim ao ser, sim a vontade de criar e de criar-se a si mesmo;
Ø Grande desprezo a moral vigente baseada na idéia de divino (bem e mal), de caráter pobre, temeroso e frágil;
Ø Felicidade como justificação da própria existência e finalidade da vida;
Ø Despreza a razão, Nietzsche quer desprezar as decisões previsíveis, esperadas e sem risco da razão, a razão e a ciência estão preocupadas com a segurança, uma verdade clara, não quer conhecer, quer tranqüilizar, querem um mundo previsível, lógico, onde o acaso não tem lugar nenhum;
Ø Despreza a virtude
Ø Despreza a Justiça
Ø Despreza a compaixão
Zaratustra mostra seu desprezo com a moral vigente e busca libertar o homem das amaras religiosas e científicas, recusa a religião moralizante e culpabilizante.
Outro ponto importante é que o autor começar a delinear algo novo na história da filosofia, que apenas evidenciamos assimilações superficiais na realidade e que em cada época as verdades se modificam, assim como o mundo, assim como as leis naturais, etc. Para Nietzsche mais importante que o “Ser” é o “Querer”, isto é chamado de vontade de potência.
Começa aqui meus problemas com a psicologia. Em geral, os psicólogos buscam a verdade no ser, no “eu” interior, na personalidade única de cada indivíduo, e acho que o foco está totalmente errado (os psicólogos vão me matar, mais a discussão é importante, sempre).
Para mim, assim como Nietzsche escreveu, o que importa não são nossos problemas, nem em nosso “eu”, o problema está justamente no querer de cada indivíduo, o foco deve ser direcionado no querer, no onde queremos chegar e não no problema em si. Por exemplo, as vezes vemos um individuo com muitos problemas pessoais mudar radicalmente apenas por ter entrado em alguma religião ou Igreja, isto acontece por que ele mudou o querer, este deveria ser o foco dos psicólogos, e aí está minha maior crítica a eles.
E que venham as críticas dos psicólogos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Com muito risco, please

Dando um pulo na continuação dos artigos sobre Zaratustra de Nietzsche, que voltam na semana que vem, gostaria de falar um pouco sobre uma palavra muito utilizada no meu ramo de trabalho, na economia, nas finanças e que tem tudo a haver com nossa própria vida, escolhas e liberdade. A palavra é Risco.
Vamos começar pela definição de risco para o mercado financeiro, prometo ser rápido: risco é a probabilidade de um determinado ativo ou acontecimento ocorrer ou não. E quanto maior for a distancia alcançada do alvo, maior o risco.
A vida não é exatamente assim? Não sabemos o que vai acontecer, não podemos determinar nada com 100% de grau de certeza. A imprevisibilidade é marca registrada em nossa existência, não sabemos quando começa nem quando termina esta.
A prova que o risco é inerente a tudo no universo, começa na determinação da matéria mais essencial, o átomo. Não é possível determinar a posição dos elétrons, os geradores de energia primária do universo. A probabilidade pode ser calculada, mas os riscos de imprevisibilidade estão lá e não podem ser 100% determinados. Que loucura, parece que tudo é relativo mesmo, e isto para mim é que é fascinante e maravilhoso. Tudo que é 100% determinado é monótono, chato e desestimulante.
Imaginem a vida determinada por destinos, como se tudo estivesse escrito. Sério, vamos analisar friamente: seria um tédio, seria muito chato imaginar que tudo está escrito e determinado a acontecer independentemente de sua vontade ou não. Volto a atacar a idéia de paraíso bíblico novamente, o paraíso onde todos são iguais e tem tudo que precisam, ora, isto também seria um tédio, o risco dos acontecimentos vem ao lado da necessidade que temos de querer mais, almejar mais, desejar mais, amar mais, etc.
Alguns têm medo deste risco todo; risco de amar, de desejar, de viajar, de morrer e de viver também, pois vida pressupõe coragem e riscos, muitos riscos que devemos nos defrontar.
Sem correr riscos não alcançamos nenhuma realização, não criamos nada para o mundo e nem para nós mesmos, não arriscamos, não sonhamos e não vivemos. Viver pressupõe correr riscos, e o risco é essencial à vida de qualquer ser vivo, aliás, a tudo que existe no universo. As mutações necessárias a evolução das espécies são determinadas justamente pelos riscos e complexidade da vida e da reprodução.
O ponto importante para mim é que o risco traz graça à vida, traz a responsabilidade dos acontecimentos, um pouco ao acaso, mesmo quando direcionamos nossas vidas não temos 100% de certeza dos eventos. Mesmo que tenhamos coragem de enfrentar os desafios e de realizar coisas, a imprevisibilidade traz um frio na barriga e ele nos mantém alertas.
A possibilidade de sair tudo errado e diferente do planejado existe, pode trazer alegrias e desapontamentos. Acho que não deveríamos ficar frustrados quando as coisas não saem como planejado, seria monótono também se todos os nossos sonhos se realizassem com facilidade ou da maneira que queremos. O risco faz toda a diferença de novo, ele nos traz para a realidade de que nem tudo depende de nós. O que seria a alegria sem a tristeza, o amor sem o ódio, o claro sem o escuro. O risco nos coloca os opostos. Todos vivenciamos os antônimos a todo o momento, não podemos determinar nossas experiências, nem nossos sentimentos.
Pois é, quanto maiores os riscos, maior será nossa ambição e consequentemente maiores os nossos sonhos. Isto mesmo, o risco de vida é proporcional ao tamanho dos nossos sonhos, sem riscos não há realizações.
É por isto que sempre digo, o paraíso é aqui e agora, não pode haver nada mais perfeito e fascinante que nossa existência. Não saber o que pode acontecer no próximo segundo nos deixa com uma vontade de viver o inesperado e o imprevisível, aquilo que ainda será escrito e que depende de nossas vontades e de nossas relações com o mundo. Viver o presente é viver os riscos e aceitá-los, quando aprendemos isto, vivemos com mais sabedoria e intensamente nossos momentos.
Quero viver com muito risco, please.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo II

Texto na Integra:
II
Zaratustra desceu só da montanha, sem encontrar ninguém. Mas ao chegar à floresta, viu-se de súbito diante de um ancião, que deixara a sua sagrada choça para ir à procura de raízes silvestres. O ancião dirigiu a Zaratustra estas palavras: “Este viandante não me é desconhecido; há muitos anos o vi passar por aqui. Então se chamava Zaratustra; mas agora está mudado.
Naquela época, levavas tuas cinzas para o monte. Queres agora trazer teu fogo para o vale? Não temes o castigo que sofre o incendiário?
Sim, reconheço Zaratustra. Seu olhar é límpido, e sua boca não encerra mágoas. Não caminha como um dançarino?
Zaratustra está mudado, Zaratustra fez-se criança, Zaratustra é homem desperto: que procuras agora entre os que dormem?
Vivias na solidão como no mar, e esse mar te levava. Pobre de ti, queres acostar? Queres de novo, infeliz, arrastar teu próprio corpo?”
Zaratustra respondeu: “amo os homens”
“Por que pensas”, disse o santo, “que busquei a floresta e o deserto, senão porque amava demasiadamente os homens?
Agora, amo a Deus; e não aos homens. Acho por demais imperfeito o ser humano. O amor aos homens me faria perecer.”
Zaratustra respondeu: “Por que falei de amor? Na realidade, trago aos homens um presente!”
“Não lhe dês nada”, disse o santo. “É preferível aliviá-los de alguma coisa que possas carregar com eles – será o que de melhor farás em seu favor se acaso isso te satisfazer!
Se insistes em dar-lhes um presente, que não seja nada mais do que a esmola, e, mesmo assim, depois de a mendigarem!”
“Não”, respondeu Zaratustra, “não lhes darei esmolas. Não sou bastante pobre para isso.”
O santo riu de Zaratustra e lhe falou assim:
“Então, procura fazer com que aceitem teus tesouros! Desconfiam dos eremitas e não querem acreditar em nossas dádivas.
Para eles, nossos passos soam por demais solitários nas vielas. De tal forma que, à noite, ao ouvirem, já no leito, andar lá fora um homem, muito antes do raiar do sol, perguntam-se com certeza: “aonde irá esse ladrão?”
Não busques os homens, e fica na floresta! Vai antes ter com os animais! Por que não queres ser o que eu sou: um urso entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”
“E que faz o santo na floresta?”, perguntou Zaratustra.
O santo respondeu: “Componho canções e conto-as, e quando componho canções, rio, choro, e murmuro: é assim que louvo a Deus.
Contando, chorando, rindo e murmurando, louvo a Deus que é meu Deus. Mas, afinal, que nos trazes de presente?”
A essas palavras, Zaratustra saudou o santo, dizendo-lhe: “Que teria eu para vos dar? Mas deixai-me partir depressa, antes que vos tire algum coisa!” E assim se separaram, o ancião e o homem, a rir como dois jovens.
Mas quando Zaratustra ficou só, falou consigo mesmo; “Como é possível? Esses santo ancião na sua floresta não sabe ainda que Deus está morto?”

Comentários:
A morte de Deus anunciada não é, evidentemente, a pregação do ateísmo, na verdade Nietzsche não demonstra tentar provar a existência ou não do divino, entretanto ele quer transparecer que a existência de Deus não é importante para o ser humano, Deus não está aqui e agora, e não precisamos dele para viver nossas vidas. As descobertas científicas durante o século XIX fizeram Deus perder poder sobre nossas decisões. Nietzsche quer acabar com nossa noção de “além”, devemos viver o presente, o agora, e não mais viver para uma vida após morte ou paraíso, ou qualquer que seja sua noção de divindade.
Nossa cultura é baseada na noção de vida após morte, entre mundo físico e mundo divino, este dualismo é atacado pelo autor, pois esta visão é fundamentalmente negativa, já que o mundo físico não vale nada, tudo nele é ilusão, pecado e angustia. Para Nietzsche o fim deste dualismo traz luz aos homens, quando ele diz: “amo os homens” ele prega uma cultura positiva e afirmativa. A alegria do autor com a “Morte de Deus” é uma posição positiva em relação à vida e a nossa existência, temos agora uma nova metafísica, baseada na alegria, no pensamento positivo e na ação criativa do homem para o presente.
Outra crítica do autor a moral cristã é percebida quando Zaratustra sugere que veio aliviar os homens do peso, do fardo que carregam por causa das instituições religiosas e do espírito mau, culpado, maculado e originalmente pecador que Jesus nos deixou.
Zaratustra diz: “trago aos homens um presente”, este presente traz uma reabilitação, à volta ao próprio homem, uma desalienação, a restituição ao homem de sua honra perdida. Mas também traz um fardo grande embutido, o da responsabilidade sobre suas decisões de agora em diante.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo I

Texto na Íntegra
I
Quando tinha trinta anos, Zaratustra deixou sua terra natal, e o lago de sua terra natal, e foi para as montanhas. Lá, durante dez anos, cultivou seu espírito e a solidão. Mas por fim, seu coração se transformou – e levantando-se, um dia, com a aurora, pôs-se diante do sol e lhe falou assim:
“Grande astro! Qual seria tua felicidade sem aqueles a quem iluminas?
Há dez anos que vem subindo até a minha caverna; já te terias cansado de dar a tua luz e descrever este percurso se aqui não estivéssemos nós, eu, minha águia e a serpente.
Mas, a cada manhã, nós te esperávamos e te aliviávamos de teu excesso, abençoando-te por isso.
Vê! Estou saturado de minha sabedoria, como a abelha que acumulou demasiado mel; anseio por mãos que se estendam.
Quero oferecer e partilhar, para que os sábios entre os homens de novo se rejubilem de sua loucura, e os pobres venham de novo a amar sua riqueza.
Preciso, pois, descer ao mais profundo, como fazes à noite, ao mergulhares por trás do mar, levando tua luz ao mundo inferior, ó astro exuberante!
Como tu, é necessário que eu “decline” para falar como os homens aos quais quero descer.
Abençoa-me, pois, olho sereno, tu que podes contemplar sem mágoa uma ventura tamanha!
Abençoa este cálice que anseia transbordar para que dele escorra a água dourada capaz de levar a toda a parte o reflexo de tua fruição!
Vê! Este cálice quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer de novo ser homem.”
-Assim começou a declínio de Zaratustra.

Comentários:Neste primeiro capitulo Nietzsche começa a descrever como será as linhas do pensamento do autor e como é sua forma literária, a da linguagem poética. Primeiramente precisamos entender porque o autor escolheu Zaratustra.
Zaratustra era um profeta iraniano do século VII antes de cristo que inventou o dualismo moral entre o bem e o mal, não o bem ou mal humano e sim o teológico ou divino, para ele existia o Deus bom e o Deus mal. Zaratustra foi o primeiro profeta a pregar um dualismo e um moralismo que serviram de herança para a Bíblia e a Grécia antiga e que impregnam nossa cultura até hoje.
O ponto importantíssimo é que este dualismo é a chave central do pensamento de Nietzsche e para justamente criticar profetas, como Zaratustra e Jesus Cristo, que Nietzsche escolheu Zaratustra para opô-lo a Zaratustra. Seria interessante ressaltar que a obra do autor não colhe a recusa como algo negativo, toda sua obra nos traz algo positivo e de transformação. Para ele a recusa da realidade humana é o primeiro passo para esta transformação a algo muito melhor.
Profetas, em geral, têm momentos de reflexão e de reclusão, e o autor faz justamente esta relação no capitulo I, e por um momento de chamamento divino, estes descem a montanha e vem falar com as ovelhas (nós).
Interessante é como o autor usa a comparação em forma de metáforas. Jesus Cristo aos 30 anos desceu as margens do rio Jordão e começou sua vida pública. A obra platônica utiliza a alusão da caverna para separar o mundo metafísico, das idéias, e do mundo ilusório. Portanto Nietzsche ataca no nível mais alto: Jesus Cristo e Platão
O sol faz o papel de Deus, na verdade em muitas culturas e religiões o sol é o Deus maior, conversar com ele é dialogar com o divino.
Outro ponto interessante é a figura da águia e da serpente. A serpente se liga ao fato do realismo, ser rastejante, terreno, racional e que liga a figura do mal bíblico (Gênese). A águia é a figura do ideal platônico, do idealismo e também podemos relacioná-la com o Deus bom (Júpiter e sua Águia). Veremos em todo o texto de Nietzsche a critica radical a este dualismo totalmente impregnado em nossa cultura e nossos valores.
O autor termina o texto com a frase “Assim começou o declínio de Zaratustra”, portanto começa a grande jornada humana, a da transformação do homem num outro ser, menos ligado a razão e a fé divina. O Declínio de Zaratustra inicia a mutação do mesmo, de um ser voltado ao divino, por ser profeta e ao racionalismo, pelos momentos de reflexão sozinho nas montanhas.
Como será este novo ser?
Aguardem próximos capítulos e que comece o diálogo com o mesmo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Introdução do Prólogo

Iremos começar hoje uma série de interpretações do prólogo do livro Zaratustra. Pessoalmente considero este livro um dos maiores ensaios de todos os tempos. Nietzsche demonstra, com sua forma peculiar, cheio de metáforas, todo o seu pensamento. Ao contrário de seus antecessores, Nietzsche escreve em forma de poesia, sem os racionalismos exacerbados em praticamente todos os filósofos anteriores, considero que isto foi proposital, já que para ele a razão não nos diferencia no mundo. Há razão em praticamente todos os animais, porém arte, musica e poesia somente os humanos são capazes de criar.
Vamos detalhar o prólogo por ser um resumo bem pedagógico de toda sua obra, uma introdução sistemática, muito estruturada, ao resta do livro Zaratustra. O Prólogo contém 10 capítulos e que serão descritos na íntegra. Tentarei fazer alguns comentários posteriormente e deixarei em aberto a cada semana para comentários dos leitores.
Zaratustra é um livro complexo, de difícil compreensão devido à forma poética que foi escrito. Algumas vezes precisei ler 3 ou 4 vezes a mesma frase para compreender o pensamento do autor, ele escreve por metáforas e praticamente todas as palavras têm outros significados que o literal. Portanto o leitor pode discordar e trazer sua própria interpretação buscando estabelecer um diálogo com Nietzsche.
Amanhã estarei publicando o capítulo I do Prólogo de Zaratustra.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Viajante Solitário

Viajar é descobrir algo novo a cada esquina, é deslumbrar novos ares e paisagens, enxergar o mundo como algo novo, sentir novos odores, tocar em objetos jamais imaginados, na verdade viajar é voltar à infância, tudo é novo, lindo, fascinante e cheio de oportunidades.
Sempre voltamos renovados ao viajar, acho que isto acontece por causa da sensação de que a vida é mais que simplesmente trabalhar, cuidar de filhos e pagar contas. Quando viajamos esquecemos os problemas, pois a quantidade de novas experiências que adquirimos nos faz preencher toda a mente e nos deliciar a cada passo. Como é bom viajar...
Pensei comigo mesmo estes dias em porque muitas pessoas me questionam sobre como deve ser ruim viajar sozinho e que a falta de troca das experiências novas com outra pessoa faria a viagem ficar vazia. Precisava escrever algo sobre isto, demonstrar minha visão e experiência, não que tenha qualquer fundamento de convencimento nisto, apenas para expor algo, provavelmente não experimentado por muito de vocês, leitores.
Viajar sozinho é conhecer você mesmo (esta é a principal característica), é experimentar as coisas do seu jeito, é contar com sua alegria, sua coragem, seu mal humor, seus medos e de suas vontades, sem depender de ninguém, isto traz um autoconhecimento sem precedentes, quando contamos somente com nós mesmos, aprendemos com nossos erros e acertos, com nossas alegrias e tristezas, com nossos limites e descobrimos com muita facilidade nossos sonhos, estes saltam aos nossos olhos a cada desafio.
Viajar sozinho é olhar o mundo com estes olhos, com nosso próprio “eu”. Uma criança não pede auxilio a outra na hora de experimentar, ela vai e faz. Pois é, viajar sozinho é experimentar as coisas do seu jeito, assim como fazem as crianças, é tomar as rédeas de nossas vidas e decidir o que fazer. É o contrario da musica de Zeca Pacodinho “... deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Viajar sozinho é tomar as decisões dos rumos a serem percorridos a todo instante, sem alternativas de adiamentos, você depende de você e mais ninguém, por isto é a vida na sua frente, você precisa decidir a todo o momento o que fazer, a vida é posta a prova e sua decisões refletem –se instantaneamente. Seus erros e acertos são revelados a cada passo. Seria como uma vida inteira passada em dias.
Viajar sozinho é viver intensamente, apenas por dias, vidas inteiras. Conheço muita gente que não tem coragem de tomar decisões sozinhas, estas iriam encarar seus medos e desafios a cada minuto. Muitos não vivem nada parecido, vivem sempre fugindo dos momentos decisivos, vivem vidas alheias por medo de tomar as próprias decisões, precisam dos outros para compartilhar tudo em suas vidas até seus momentos mais únicos.
Alguns dizem que ficar sozinho é chato e entediante, acho que estas não se conhecem, pois basta uma conversa interna (entre você e seu “eu”, pode parecer engraçado, mas faço muito isto, converso comigo mesmo na terceira pessoa) para perceber quanto somos maravilhosos para nós mesmos, nos amamos muito porque somos únicos, se você ainda não descobriu isto, corra, a vida está passando e ninguém no mundo o fará mais feliz que você mesmo. Quando viajo sozinho me perco a toda hora rindo de mim mesmo, pelas decisões erradas, pelos desencontros e pelos encontros, pelos momentos proporcionados pelas minhas decisões, sejam felizes ou não. O importante é que foram momentos proporcionados por minhas escolhas, meus medos e minha forma de enxergar o mundo.
Outros dizem que ninguém vive sozinho, na verdade quem viaja sozinho nunca está sozinho. Quem viaja sozinho está sempre aberto a novas amizades, seu coração e suas expectativas estão sempre antenados para captar novas vibrações e pessoas, só que em vez que compartilhar a companhia de alguém por todo o tempo, somente trocamos experiências pelo tempo necessário para não julgar a vida alheia. Nossas amizades são por trocas de experiências, não de convívio e isto faz toda a diferença.
Pois é, não sei se entenderam meu recado, não estou propondo que todos viajemos sozinhos sempre de agora em diante, estou apenas relatando algumas experiências pessoais para ilustrar situações que muitos não conhecem, quando encontramos viajantes solitários sempre iremos ver em seus olhos alegria, alegria de viver experiências únicas, sempre percebi isto em minhas andanças pelo mundo, dar para ver nos olhos os viajantes solitários e distingui-los em qualquer multidão.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A Imortalidade Humana

De repente, ninguém mais morreria.
Não haveria mais a figura da morte. E a velhice chegaria, mas de uma forma diferente, “programada”, lenta...
Não é uma coisa impossível. Até mesmo Saramago já imaginou um país em que as pessoas pararam de morrer. A morte suspendeu suas atividades.
Ao imaginar isso, já me delicio ao imaginar as milhares de coisas e loucuras poderiam ser finalmente realizadas – e todos aqueles livros que ainda não li, e as viagens que não fiz, as coisas que não disse....
Àqueles que já são capazes de se deslumbrar com a vida, àqueles que já possuem o espírito cheio de mundo, vivências, virtudes, imaginação... Para esses, a possibilidade de vida eterna seria uma dádiva, todo o conhecimento, a ser adquirido, todo o amor que poderia ser vivido e todas as possibilidades que seriam criadas...
Pessoas normais se transformando em pessoas extraordinárias.
No entanto, imortalidade não é promessa de harmonia, ou vida mais tranqüila.
Digo isso, porque pensei no homem-comum, aquele que retiramos de nossos pensamentos e acrescentamos em preces diárias (mais um problema pra deus – se é que existe – resolver). Pensei no excluído, no miserável, que não tem onde morar, nem o que comer. A vida sem tempo lhe daria chance de mudança? Em que a imortalidade ajudaria esse homem?
Pra muita gente, o tempo não resolve nada.
A tal da vida eterna não transforma a essência da pessoa. Aqueles que se servem da maldade, continuariam malvados, os perdulários, continuariam gastando, e o homem que mendiga continuaria miserável.
Seria justo condenar um homem de rua à uma vida eterna de esmolas, intempéries e maus tratos? Não acredito que pelo simples motivo de poder viver eternamente, ele seria capaz de se erguer da margem da sociedade e se incluir. Não se tornaria cidadão, nem deixaria de ser invisível para os outros.
A imortalidade socorre a quem tem riqueza de espírito. Ela só seria um benefício para quem tem uma desavença com a pressa do tempo, já que é ele que nos avisa que estamos acabando, que as coisas perecem.
Viver é bom demais. Porque haveria de ter fim? (como Zorba, que gritou: “Um homem como eu, deveria viver mil anos”).
A imortalidade acabaria com a angústia de haver um final. Traria a sabedoria num momento da vida em que ainda se teria forças para aproveitá-la. Abraçaríamos a multiplicidade de desejos. Não haveria pressa em resolver tantas questões. (se bem que ainda seria muito bom ouvir um “quero você aqui e agora”, pra essas coisas, a eternidade não tem influência nenhuma).
Mas a imortalidade não é um dos meus desejos.
Porque o tempo é culpado pelas mudanças. É ele que instiga as loucuras, as aventuras... O tempo urge. Talvez até nos faça amar mais... Amamos como quem já se despede. Queremos estar junto o tempo todo. Pra não acabar.
A morte é necessária, faz parte da vida. Chegada e partida.
Tenho medo da eternidade. O “pra sempre” cansa. O que você seria capaz de fazer por toda a vida sem se cansar?
Com a imortalidade, muitas coisas perderiam a importância. Há coisas que são bonitas porque são findas. A eternidade nos roubaria essas belezas.
E acredito que a beleza de certas coisas é capaz de conferir a elas o título de eternas. Há músicas eternas, peças eternas, quadros eternos, pessoas eternas.
Enquanto a ciência não nos apresenta uma possibilidade real de eternidade, podemos almejar a imortalidade conquistada com a beleza. Ter uma história de vida boa, talvez consiga nos conferir um pouco de imortalidade, na lembrança daqueles que amamos.
Gosto do diálogo com a morte, do livro de Saramago:
- “Vc não é a vida”.
- “Sou muito menos complicada que ela”.

Por Fernanda Amaral

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A evolução do homem como animal

Apesar de extremamente debatido e criticado, ainda hoje, pelas diversas religiões do planeta, o tema da Teoria de Evolução proposta por Charles Darwin no século XIX merece uma análise e maior aprofundamento sobre o esclarecimento do surgimento da vida em nosso mundo.
A ciência já teoricamente provou as etapas da vida em nosso planeja, existem provas comprobatórias da evolução da vida e da criação do Homo Sapiens. Estamos apenas numa fase do tempo da vida na Terra, um lugar no futuro, presente e passado deste planeta. A vida evoluiu e pelas adversidades e seleção dos mais aptos surgiu um ser que pôde ter a consciência de sua própria existência, um ser tão complexo capaz de refletir sobre sua vida e morte, de poder ter suas próprias escolhas, desejos e sonhos. Este ser tornou-se possível devido a várias conjunturas, e que ainda não evoluiu o suficiente para afirmarmos que trata-se de um ser racional, nós ainda não somos racionais, acredito de ¾ de nossas ações são providas pelo instinto animal presente em nossa natureza e apenas ¼ seja racional.
Existem outros seres vivos que tem consciência de sua existência também, e que utilizam a razão, claro que menos que nós, mas tem os mesmos elementos básicos do desenvolvimento da razão. Exemplo de animais com consciência de si mesmos: Chipamzé, Golfinho-Nariz-de-Garrafa, Elefante Asiático.
O que poderíamos classificar de racional? O que é ser racional? Estas perguntas são, em meu modo de ver, a grande gestão do momento, até que ponto podemos nos auto declarar racionais. A racionalidade provém de análise e de reflexão sobre as melhores escolhas e não as escolhas que nos proporcionem mais prazeres. Somos impulsionados pelo desejo de satisfação de nossos desejos, que são instintivos, desejos criados a partir de nossa ancestralidade animal presente em nossos genes.
Temos a capacidade de nos tornarmos seres realmente mais evoluídos, ou seja, que utilizem mais racionalidade do que instinto. Vislumbramos inteligência em alguns setores de nosso planeta, porém ainda há muita ignorância em outros. Acredito que estamos neste instante, vivendo nossa transição para uma nova espécie que poderíamos chamar de Homo Logos, ou seja, coexistimos com seres que já utilizam bastante razão em suas decisões e seres ainda muito desprovidos dela.
Não estou propondo esquecermos as emoções e apenas vivermos totalmente racionais, pois neste caso seríamos iguais as máquinas, estou propondo um aumento, um acréscimo do percentual de razão em nossas decisões, acredito que viveríamos bem melhor, a emoção nos ilude muito, nos deixa cegos, lembram do artigo sobre a felicidade: “Prefiro acreditar que a felicidade está baseada na condição humana de estar em harmonia com nossas virtudes que somente podem ser alcançadas através da busca da compreensão de nós mesmos e do mundo, nesta busca, a confiança que vamos adquirindo sobre nossas pontecialidades nos tornam mais fortes, confiantes e consequentemente felizes” (http://ligadavirtude.blogspot.com/2009/05/ignorancia-e-felicidade.html)
Não consigo ver felicidade verdadeira sem análise e razão, mas também não consigo vê-la sem a paixão que nos move. Viva novamente a razão com paixão (risos).
Abraço a todos e já espero muita polêmica.