segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo IX

Texto na Integra:
IX
Por muito tempo esteve adormecido Zaratustra, e os raios da aurora bem como os da manhã giraram-lhe sobre a face. Por fim seus olhos se abriram, e Zaratustra maravilhou-se com a floresta, com o silêncio, e maravilhou-se com também consigo mesmo. Depois ergueu-se de um lance como um marinheiro que de súbito vê terra, e exultou: pois via agora uma verdade nova. E então falou consigo mesmo:
“Fez-se uma luz em mim: preciso de companheiros, companheiros vivos – não de companheiros mortos ou cadáveres, que eu leve comigo aonde eu for.
“Não, quero companheiros vivos, que me sigam para onde eu for, porque querem seguir a si mesmos.
"Fez-se uma luz em mim: Zaratustra não deve mais falar à multidão, mas a seus companheiros! Zaratustra não se deve tornar pastor nem o cão do rebanho!
“Seduzir e afastar muitos do rebanho – eis a meta a que vim. Multidão e rebanho, que tudo atroe contra mim: Zaratustra quer que os pastores o chamem de bandido.
“Emprego a palavra pastores, mas eles próprios se designam com os bons e os justos. Emprego a palavra pastores, mas eles próprios se de designam como fiéis da fé verdadeira.
“Olhai, esses bons e esses justos! Que mais odeiam? Aquele que destrói suas tábuas de valores, o demolidor, o criminoso – mas este é que é um criador.
“O criador procura companheiros para si e não cadáveres, e bem assim nem rebanhos e nem crentes. O criador procura companheiros de criação, para que inscrevam novos valores sobre novas tábuas.
“O criador procura companheiros, companheiros de colheita: porque nele tudo está amadurecido para a ceifa. Mas faltam-lhe as cem foices: por isso que, na sua cólera, sai arrancando espigas.
“Os companheiros que o criador procura são os que sabem afiar as foices. Serão chamados de destruidores e desdenhosos do Bem e do Mal. Mas na verdade são os ceifadores, aqueles que celebram a festa.
“Companheiros de criação é o que busca Zaratustra, companheiros de ceifa e de festa procura Zaratustra: nada tem a ver com rebanhos, pastores e cadáveres.
“E tu, meu primeiro comparsa, repousa em paz! Estás bem sepulto nesse oco de árvore, posto a salvo dos lobos.
“Mas devo deixar-te, já se foi o tempo. Entre uma aurora e outra, uma nova verdade despontou em mim.
“Não devo ser nem pastor nem coveiro. Não quero nunca mais falar às multidões, pela ultima vez falei a um morto.
“O criador, o ceifeiro, o que celebra a festa, a estes quero unir-se: a eles quero revelar o arco-íris e todos os graus do super-homem.
“Aos solitários vou erguer meu conto e mesmo aos casais que vivem em solidão. Quem ainda tiver ouvidos para o inaudito, a esse quero inundar o coração com a minha felicidade.
“Quero atingir a minha meta, seguir o meu caminho; saltarei por cima dos hesitantes e dos descuidados. E que meu passo seja o seu declínio!”

Comentários:
Infelizmente Zaratustra percebeu a incapacidade do homem em compreender o super-homem. Apesar de compreender a causa do fracasso, achou um remédio: fugir das multidões.
Novamente Nietzsche traz a alusão dos discípulos de Cristo para criticá-lo novamente, em vez de companheiros que o sigam, estes devem seguir a si mesmo. Criar a si mesmo é criar ou recriar eles próprios, lembram do processo criativo do super-homem?
Seguir a si mesmo é, pois, exatamente não mais seguir a Deus, renunciar ás tábuas da lei, diretamente gravadas por Deus, desobedecer a Deus para obedecer somente a si mesmo.
Ainda hoje percebe-se a incapacidade do homem em compreender Nietzsche, vejo alguns colegas falarem que o nazismo de Hitler baseou-se nas idéias nazistas dele. Ora, quem acompanha os textos deste o início pode verificar que Nietzsche não discrimina ninguém em seus textos, ele apenas utiliza personagens e metáforas para defender sua tese, todos podemos compreender o super-homem, não existe raça superior. O super-homem é todo homem que esquece sua moral religiosa e passa a viver e a compreender o mundo a sua maneira, criando valores e transformando sua realidade e o mundo a sua volta.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo VIII

Texto na Integra:
VIII
Após ter falado assim consigo, Zaratustra colocou o cadáver às costas e se pôs a caminho. Mal dera cem passos, surgiu um homem que lhe veio falar junto ao ouvido. E – vejam só! – quem lhe falava assim era o bufão da torre. “Vai-te embora daqui, ó Zaratustra”, disse-lhe, “há gente demais aqui que te odeia. Odeiam-te os bons e os justos, chamam-te inimigo e julgam que os desprezas; os fieis da verdadeira fé também te odeiam, consideram-te um perigo para o povo. Tua sorte foi terem rido de ti; e na verdade falaste como um bufão. Tua sorte foi teres te acumpliciado com esse cão morto; ao te rebaixares assim, te salvaste por hoje. Mas parte da cidade – senão amanhã saltarei sobre ti, eu que estarei vivo, sobre ti que estarás morto.” Com estas palavras, o homem desapareceu; e Zaratustra prosseguiu seu caminho através das escuras ruelas.
À porta da cidade, encontrou-se com os coveiros que, aproximando-lhe do rosto seus archotes, reconheceram Zaratustra e se puseram a fazer pesados gracejos a seu respeito: “Lá vai Zaratustra arrastando a cão morto; ainda bem que Zaratustra se fez coveiro! Porque nossas mãos são limpas demais para essa carniça! Zaratustra quer disputar ao diabo a porção que lhe cabe? Pois que faça bom proveito, se regale no festim” Isso, se o diabo não for melhor ladrão que Zaratustra, pois, do contrário, acaba então por devorar os dois!” E, falando uns para os outros, escarneciam entre si.
Zaratustra não disse palavra e seguiu seu caminho. Depois de caminhar por duas horas ao longo de pântanos e bosques, ouvindo o uivo esfaimado dos lobos, a fome o assaltou, por sua vez. Foi então que se deteve diante de uma casa solitária, onde brilhava um lume.
“A fome me assalta como um bandido”, disse Zaratustra. “Minha fome assalta-me no meio dos bosques e dos pântanos e no seio da noite profunda.
Minha fome tem caprichos estranhos. Não raro ela só me vem depois das refeições, e hoje, durante o dia inteiro, não me apareceu: onde teria andado?”
E enquanto assim falava, Zaratustra bateu à porta da casa. Apareceu um ancião, trazendo um lume, que lhe perguntou: “quem chama por mim e pelo meu mau sono?”
“Um vivo e um morto”, respondeu-lhe Zaratustra; “dá-me de comer e beber, pois disso não cuidei durante o dia. Quem nutre o faminto, conforta sua alma: eis a voz da sabedoria.”
O velho retirou-se para logo voltar, oferecendo a Zaratustra pão e vinho. “estas são más paragens para os famintos”, disse ele, “por isso moro aqui. Bichos e homens procuram por mim, o eremita. Mas convida teu companheiro também a beber e comer, ele está mais cansado do que tu.” Zaratustra respondeu: “Meu companheiro é um morto, vai ser difícil convencê-lo disso.”
“Tanto se me dá”, disse o velho, resmungando, “quem bate à minha porta deve aceitar o que ofereço. Comei e passai bem!”
Depois disso, Zaratustra caminhou outras duas horas, guiando-se pelo curso e a luz das estrelas: pois estava habituado a caminhar à noite e gostava de olhar a face de tudo quanto dorme. Mas quando despontou a aurora, Zaratustra se encontrou numa floresta sombria, onde nenhuma passagem parecia haver. Então, vendo uma arvore que tinha um oco à altura de um homem, ali depositou o cadáver – pois queria mantê-lo a salvo dos lobos – estendendo-se no musgo do chão. E logo adormeceu, o corpo fatigado, mas a alma tranqüila.

Comentários:
Nietzsche descreve no que se transformou as quatro virtudes cardinais, segundo a moral humana, são elas;
 Coragem
 Sabedoria
 Temperança
 Justiça
Podemos encontrar as quatro virtudes desenhadas no texto acima e sua crítica apontada pelo autor.
Estamos terminando esta leitura, faltam agora apenas 2 capítulos, onde o autor falará sobre o Eterno Retorno, aguardem.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A institucionalização do racismo

A palavra racismo denota algo pejorativo, pois em geral utilizamos para classificar um crime de discriminação de raças entre os humanos. Vamos começar buscando o significado no dicionário Michaellis. Racismo é a teoria que afirma a superioridade de certas raças humanas sobre as demais. Caracteres físicos, morais e intelectuais que distinguem determinada raça. Ou Ação ou qualidade de indivíduo racista. Ou ainda, apego à raça.
Ora você pode ser racista quando escolhe uma raça de cachorro ou gato em relação à outra, quando prefere uma onça em relação ao leopardo, ou gosta mais de papagaio em contra partida ao canário. No entanto a separação de humanos em raças é ilegal e é crime.
Pode parecer que vou defender o racismo, mas não vou não. Não por querer ser politicamente correto, que todos sabem que não sou, mas por que não consigo admitir que seres humanos tenham raça. Nós não somos diferentes, pretos, brancos, pardos, índios, temos as mesmas características e, portanto não podem ser separados por raça. Vejo muitos grupos étnicos, principalmente de negros afirmarem “Raça Negra”, mas o que seria a raça negra, um labrador (cachorro) pode ser marrom ou preto e mesmo assim pertence à raça labrador. A cor não pode ser utilizada para separação de humanos em raça.
A espécie animal a que pertencemos, o homo sapiens, é nova, bem recente em termos de vida no planeta Terra. De acordo com estudos científicos temos no máximo 200.000 anos, ou seja, somos uma espécie muito nova. A terra tem aproximadamente 5 bilhões de anos. Não houve tempo ainda para que aparecessem características distintas entre nós que poderíamos classificar como separação de raças. Pode até ser que no futuro existam classificações para determinar alguma característica bem acentuada de uma divisão natural da espécie, mas hoje não há.
Outro argumento é que como não temos atualmente nenhum povo ou sociedade isolada, isto traz uma uniformidade na reprodução e não isola a espécie impedindo uma mutação e diferenciação acentuada.
Pois é, não consigo admitir nem aceitar qualquer discriminação entre humanos pela cor, é cientificamente inconsistente, socialmente imoral, e humanamente ignorante. Não existem características diferenciadas a determinada cor, entre humanos, que possa ser catalogada e identificada. Somos totalmente iguais e não podemos, nem devemos nos separar ou diferenciar por ser preto, branco, pardo, moreno ou amarelo. Sim, “amarelo”, na minha certidão de nascimento aparece minha cor como amarelo, já ri muito disto.
Do ponto de vista sociológico, também é absurdo a discriminação racial. Separar a sociedade em raças cria caos social, cria grupos isolados, cria minorias que constantemente exigem serem ouvidas gerando tensão e discriminação entre os indivíduos sem razão aparente.
Dentre deste contexto, não posso aceitar que a constituição ou qualquer lei neste país dê, ou favoreça qualquer separação entre humanos por cor ou raça. Leis como a disponibilização de cotas universitárias para determinada raça, leis que favoreçam índios em certos concursos públicos, e etc. Se temos determinados grupos (não raças) que encontram-se excluídos da sociedade, vamos incluí-los através de políticas públicas de participação e inclusão, não institucionalizando a discriminação com leis absurdas.
As tensões sociais começam exatamente com a separação da sociedade em minorias, sejam lá quais forem. Levar esta separação as leis não me parece racional. Institucionalizar é a dar voz a elas para começarem a se unir e a se rebelar entre os diversos grupos sociais.
Discriminação racial é burrice em qualquer circunstância e devemos, como humanos dotados de alguma razão, nos rebelar contra qualquer forma de separação de grupos em cores ou raças.
Somos humanos, homo sapiens, não importa a cor, mesmo os amarelos (risos).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Deus no Haiti

Caros, me enviaram o texto abaixo ontem por email, não sei quem escreveu, também não sei se concordo com os argumentos expostos, mas achei interessante o ponto de vista e gostaria de compartilhar com vocês este debate.
Eu fico me perguntando em porque temos países tão desenvolvidos no mundo, com qualidade de vida e etc., e outros sem a menor infra-estrutura, sem condições de prover o mínimo de condições de sobrevivência. Pode parecer cruel, mas sempre temos que escolher na vida entre Liberdade e Igualdade, esta para mim sempre foi à pergunta básica entre capitalismo e socialismo.
O capitalismo traz liberdade e isto pressupõe diferenças entre seus indivíduos, liberdade traz desigualdade, pois as possibilidades são conquistadas e não dadas, já o socialismo pressupõe igualdade, mas igualdade traz acomodação e falta de competição trazendo falta de liberdade. Esta escolha eu já fiz, quero e busco sempre a liberdade, mas cada sociedade deve ter a opção de escolher e a caminhar na direção escolhida, para isto temos a democracia, quando mais estatizamos as coisas, quanto mais aumentamos o estado, mais estamos tirando a liberdade das pessoas, pensem nisto.
As ajudas humanitárias devem ser sempre por um prazo finito, quando somos assistencialistas estamos tirando as conquistas e a força de vontade das pessoas e com isto sua liberdade.

Texto:
“O Haiti é aqui.”
Não, o Haiti é lá onde ele sempre esteve esquecido.
O Haiti é a prova irrefutável de que Deus não existe. Se ainda aquele povo insiste em glorificá-lo, é porque foi condicionado — todos somos produtos do meio, cães famintos sob vigas que não se sustentam. Foram soterrados pela esperança. Alguém em suas crendices lacrimosas há de dizer, as mãos levantadas aos céus, que, pelo menos, a cruz do Senhor Morto ficou de pé. Ficou de pé porque era feita de boa madeira, ora! Não preguemos, a partir de amanhã, o milagre da cruz. Não há milagre que não seja sustentado pela própria morte para confortar os moribundos. Talvez apenas um milagre seja recomendado ali: o da união dos outros povos para reconstruir aquele povo e soerguer sua pátria carcomida pela fome.
Naquele instante trêmulo, onde estava Deus onipresente que não respondeu aos gritos de socorro? Onde estava Deus onipotente que não freou as lágrimas...? Ah, sim, “Ele escreve certo por linhas tortas”, ou seja: Ele mata por vias indiretas.
Por mais que também soframos com o olhar soterrado da criança, jamais, em tempo algum, sentiremos em toda extensão a dor da mãe. E desta vez, nem se pode creditar à mãe África a desgraça de existir... A tragédia está à porta para uma reflexão momentânea. Daqui a pouco, as notícias vão escasseando e não choraremos mais os mortos-vivos, nem os mortos velhos.
Se Deus existisse, decerto nos ensinaria tão somente uma lição. Uma que não cobrisse de escombros a vida suave de dona Zilda, nem deixasse órfãos dois milhões de crianças. Se alguém por aí adiante ainda teima que Deus existe, Ele está justamente nessa força medonha da natureza, não no homem que a destrói, não na imagem da catedral que foi ao chão.
Assim concluo: Deus é a tragédia do universo à imagem e semelhança do homem que o inventou. Basta olharmos para o Haiti.
Autor: Desconhecido

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo VII

Texto na Integra:
VII
Enquanto isso, a tarde caíra e a praça do mercado se envolvia na sombra. Então a turba dispersou-se, pois mesmo a curiosidade e o pavor acabam por cansar. Mas Zaratustra continuou sentado no chão ao lado do morto, e, mergulhado em seus pensamentos, esqueceu-se assim do tempo que passava. Por fim, a noite veio, e um vento frio soprou sobre o solitário. Então, Zaratustra levantou-se e disse para si mesmo:
“Em verdade, Zaratustra fez hoje uma bela pesca! Não pegou um homem, mas assim mesmo um cadáver.
Angustiante é a existência humana, e, até este ponto, desprovida de sentido: um bufão pode lhe ser fatal.
Quero ensinar aos homens o sentido de seu ser: ou seja, o super-homem, raio da nuvem negra que é o homem.
Mas ainda estou longe deles, e o sentido do que falo não lhes fala ainda aos sentidos. Para eles, os homens, ainda estou a meio caminho entre o louco e o cadáver.
Sombria é à noite, sombrios são os caminhos de Zaratustra. Vem, companheiro rígido e frio! Vou levar-te ao lugar onde te sepultarei com minhas próprias mãos.”

Comentários:
Aconselho aqueles que participam do blog pela primeira vez que leiam os artigos anteriores de Zaratustra para uma melhor compreensão dos textos de Nietzsche.

Apesar dos “sombrios caminhos de Zaratustra” e de ironizar seu próprio insucesso de não convencer a multidão de seus propósitos, Zaratustra se mostra ainda mais decidido em sua peregrinação, ele quer ensinar ao homem o sentido do “ser”.
A escuridão que envolve o homem e sua existência “até este ponto, desprovida de sentido”, será revelada pela sua experiência e então irão perceber a necessidade de criar o super-homem em nós.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo VI

Texto na Integra:
VI
Mas algo então se passou que fez emudecer as bocas e arregalar os olhos. É que, nesse ínterim, o funâmbulo tinha dado início a seu trabalho: saíra de uma pequena porta e estava caminhando sobre a corda estendida entre duas torres, e consequentemente suspensa sobre a praça e a multidão. Achava-se exatamente a meio de seu percurso, quando a porta de novo abriu e nela apareceu um indivíduo todo pintado à maneira dos bufões, que se pôs a seguir o primeiro a passos largos. “Vamos, mais depressa, ó paralítico”, gritava com sua voz terrível, “anda, seu preguiçoso, seu impostor, vil aprendiz! Cuidado, que te vou pisar o calcanhar! Que fazes aqui entre as torres? Lá dentro delas é que é o teu lugar, lá deviam te encerrar para não estorvares o caminho de quem é melhor que tu!” A cada palavra mais se aproximava do outro. Quando estava a apenas um passo dele, aconteceu a coisa terrível que fez emudecer as bocas e arregalar os olhos. Deu um uivo diabólico e saltou por cima daquele que lhe impedia o caminho. Ora, este, vendo seu rival triunfar, perdeu a cabeça e a corda; largou a vara de equilíbrio, e, mais rapidamente do que esta, num rodopiar de braços e pernas, mergulhou no vazio. A praça e a multidão pareciam um mar fustigado pela tempestade. A multidão espalhou-se em atropelo, fugindo do local onde o corpo devia vir se espatifar.
Só Zaratustra permaneceu imóvel; o corpo caiu bem ao seu lado, todo disforme, mas ainda vivo. Após um momento, o homem recuperou os sentidos e viu Zaratustra ajoelhar-se junto dele. “Que fazes aqui?”, disse enfim, “Há muito que sabia que o diabo me daria uma rasteria. E agora, ele me arrasta para o inferno. Acaso podes impedi-lo?”
“Amigo, juro-te pela minha honra”, respondeu Zaratustra, “que isso de que falas não existe: não há nem diabo nem inferno. Tua alma morrerá ainda mais depressa que teu corpo. Agora já não tens o que temer!”
O homem ergueu os olhos, desconfiado. “Se dizes a verdade”, disse então, “nada perco por perder a vida. E não passo de um animal a quem ensinaram a dançar à custa de pancadas e magros bocados.”
“Não”, disse Zaratustra, “fizeste do perigo o teu ofício; não há nada de desprezível nisso. Morres vítima de tua profissão. Por isso, quero te sepultar com minhas próprias mãos.”
Depois dessas palavras de Zaratustra, o moribundo não mais respondeu; moveu apenas a mão como se procurasse a de Zaratustra para agradecer-lhe.

Comentários:

Vamos resumir um pouco o esquema montado por Nietzsche até agora:

DEUS + VONTADE DE POTÊNCIA NEGATIVA + FORÇAS REATIVAS = HOMEM
MORTE DE DEUS + VONTADE DE POTÊNCIA NEGATIVA + FORÇAS REATIVAS = ÚLTIMO HOMEM
MORTE DE DEUS + VONTADE DE POTÊNCIA AFIRMATIVA + FORÇAS ATIVAS = SUPER-HOMEM

Agora o autor vem expressar mais uma possibilidade.

MORTE DE DEUS + VONTADE DE POTÊNCIA NEGATIVA + FORÇAS ATIVAS = HOMEM SUPERIOR

Nesta possibilidade encontramos um homem sem criação de valores mas louvável pois sua moral não é apoiada por uma fé religioso. Se não tem fé não significa que não tenha leis.
Assim, nem engrandecido (como o super-homem), nem apequenado (como o último homem) pela morte de Deus, continua-se a respeitar os valores tradicionais, e, transpondo o catecismo para um código de saber-viver supostamente leigo, age-se em nome desse código.
Mas precisamos criar valores, esta é a função do homem, ou super-homem para Nietzsche, e estes valores precisam de uma vontade afirmativa, sem isto o homem sempre caminhará ao fracasso.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Virtude

Acabei de assistir novamente um filme fantástico, este me inspirou a recriar a liga da virtude há algum tempo atrás, este filme fala sobre caráter, ética, moral e virtudes. Sempre digo que precisamos de mais filosofia nas escolas, em nossas casas e no mundo em geral.
Estudar filosofia é estudar a história humana, suas conquistas e seus fracassos, é poder avaliar os rumos tomados e as idéias que norteiam nossa sociedade, inclusive hoje. Somos hoje o reflexo de grandes homens que nos antecederam.
O filme que relato acima é Clube do Imperador, todos deveriam assistir e tentar perceber a magia que a realidade nos traz, não precisamos de mistérios, de paraíso, de energias inexplicáveis, nem de Deus, o mundo já é pleno em surpresa, magia e desafios.
Clube do Imperador é um desafio a virtude e como formar cidadãos conscientes de caráter e de valores, sem precisar de uma vírgula sequer de religião. As pessoas acham que Ateus são desprezíveis, porque não crêem em nada, são vazios por dentro. Digo que quem mata Deus e não coloca nada em seu lugar é desprezível mesmo, ninguém vive sem valores.
Nietzsche nos ensinou, amigos, que precisamos de valores para viver, mas estes valores não precisam ser valores do além, de algo ilusório, simplório e inimaginável, o homem é capaz de criar valores maravilhosos sem precisar de livros espirituais.
Durante o filme percebemos como a história humana é rica em criação de valores totalmente distintas de religião. Acontece que os valores criados são mutáveis e devem ser. A sociedade caminha, não fica parada, nossos valores precisam sempre mudar. A historia nos ensina que estes valores são criados, mudados e alterados por indivíduos notáveis, seres capazes de enxergar além de montanhas, e são justamente estes homens que são lembrados e transcendem suas existências.
Pois é, que todos possa se deslumbrar com vida terrena e presente; e criar SEMPRE novos valores importantes para a convivência humana na busca de um mundo melhor. Chega de verdades imutáveis, não precisamos de verdades absolutas para encontrarmos um caminho. Deus é o caminho mais fácil, difícil é encontrarmos nossos valores, nossas próprias verdades e nossos sonhos.
Viva os grandes homens que nos antecederam e que deixaram a escuridão para enxergar um caminho próprio a seguir.
A Luz não está acessa, precisamos encontrar sua fonte para iluminar nossas vidas e nossos sonhos.
Coragem!!!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo V

Texto na Integra:
V
Depois de pronunciar estas palavras, Zaratustra considerou de novo a multidão e se manteve em silêncio. “Ei-los diante de mim”, disse consigo mesmo, “e ei-los que riem. Não me compreendem , não sou a boca que convém a esses ouvidos.
Será preciso antes furar-lhes os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos? Será preciso retumbar como os tambores e os sermoneiros da quaresma? Ou só acreditam naquele que gagueja?
Há algo de que se orgulham. Como chamam a isso de que se orgulham? Cultura, é como lhe chamam, e é por ela que se distinguem dos guardadores de cabras.
Por isso não gostam de ouvir a palavra “desprezo” usada contra eles. Vou antes falar-lhes ao orgulho.
Para tanto, devo falar do que há de mais desprezível: do ultimo homem.”
E assim falou Zaratustra à multidão:
“É chegado o tempo de o homem estabelecer a sua meta. É chegado o tempo de o homem depositar na terra o grão de sua esperança mais alta.
Seu solo é ainda bastante rico para isso. Mas um dia esse solo estará tão pobre e exaurido, que nele nenhuma àrvore de porte poderá mais crescer.
Ai de vós! Eis chegado o tempo em que o homem não mais lançará a flecha de seu desejo para além do homem, o tempo em que a corda de seu arco terá desaprendido de vibrar!
Eu vos digo: é preciso ter caos ainda dentro de si para poder gerar uma estrela piscante. Eu vos digo: ainda tendes caos dentro de vós.
Ai de vós! Eis que chega o tempo em que o homem não poderá mais dar á luz uma estrela. Ai de vós! Eis que chega o tempo do mais desprezível dos homens, aquele que nem é mais capaz de desprezar-se a si mesmo.
Vede! Eu vos mostro o último homem.
‘Que é o amor? Que é a criação? Que é o desejo? Que é uma estrela?’ Assim pergunta o último homem com um piscar de olhos.
Eis que a terra encolheu-se e sobre ela saltita o último homem, que amesquinha tudo. Sua espécie é indestrutível, como a dos pulgões; o último homem, o que perdura mais tempo.
‘Inventamos a felicidade’. Dizem os últimos homens com um piscar de olhos.
Abandonaram as regiões onde era difícil viver; pois precisam de calor. Ainda amam seu vizinho e a ele se aconchegam, pois precisam de calor.
Adoecer e desconfiar, para eles é pecado; avança-se com cautela. Insensato aquele que ainda tropeça em pedras ou em homens!
De quando em quando, um pouco de veneno: traz sonhos agradáveis. E muito veneno, no fim, para se morrer agradavelmente.
Trabalham ainda, pois o trabalho é uma distração. Mas ficam atentos para que esse divertimento não os canse.
Ninguém fica mais nem pobre nem rico: é algo penoso, tanto para um quanto o outro. Quem ainda deseja governar? Quem ainda deseja obedecer? São ambos consativos demais.
Nenhum pastor e um só rebanho? Todos querem o mesmo, todos são iguais. Quem sente de maneira diversa se condena ao hospício.
‘Outrora, todo o mundo era louco’, dizem os mais astutos, com um piscar de olhos.
Estamos bem avisados, sabemos tudo o que acontece. Por isso, não paramos de escarnecer. Acontece ainda discutirmos, mas logo nos reconciliamos – as brigas fazem mal ao estômago.
Temos nossos pequenos prazeres diurnos e nossos pequenos prazeres noturnos; mas cuidamos da saúde.
‘Inventamos a felicidade’, dizem os ultimos homens com um piscar de olhos.”
Com isso teve fim o primeiro discurso de Zaratustra, também chamado prólogo, pois os gritos de júbilo da multidão o interromperam nesse ponto: “Dá-nos esse ultimo homem, Zaratustra”, gritavam eles. “Faz de nós esses ultimos homens, que te daremos o super-homem de presente!” E a multidão inteira se rejubilava e estalava a língua. Mas Zaratustra, tomado de tristeza, assim falou consigo:
“Não me compeendem: não sou a boca que convém a seus ouvidos.
Sem dúvida passei muitos anos na motanha, a escutar demais riachos e as arvores, e agora lhes falo como a guardadores de cabras.
Minha alma está serena e clara como a montanha ao amanhecer. Mas eles me tornam por um cínico, um zombeteiro de sinistras ironias.
E, então, olham para mim e riem; e rindo, também me odeiam. Há um gelo no seu riso.”

Comentários:
A chegada do super-homem implica necessariamente na morte de Deus, ou na derrubada dos valores, para o autor é preciso destruir o homem para construir outro. No entanto este processo não é simples e pode fazer com que o homem se torne um ser sem valores, ou seja, o último homem.
O último homem é aquele que destruiu o homem, os valores religiosos e cristãos, mas não é capaz de criar uma nova moral nem novos valores.
O super-homem nega Deus de forma afirmativa, para criar uma nova metafísica, o ultimo homem nega Deus de forma negativa, apenas para destruí-lo. Para o ultimo homem se Deus não existe tudo é permitido e neste sentido não há nenhuma razão para se proibir tornando o homem vazio.
O autor está neste momento descrevendo uma etapa na transformação do homem no super-homem, nesta etapa de destruição de valores o homem precisa ter mente que este destruição ocorre para a criação de uma outra, quando isto não acontece o homem torna-se o último homem, e como Nietzsche diz, o mais desprezível dos homens, pois não coloca nada no lugar, nenhum homem pode viver sem valores. Para o último homem tudo é permitido, ele não tem virtudes, não tem justiça, não tem sabedoria, tudo torna-se material e efêmero, ele transforma a felicidade em algo passageiro e ilusório baseado nos desejos.
O ultimo homem torna-se tão cético de tudo que não é capaz de desprezar-se a si mesmo, pois isto não é capaz de criar nada novo.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Peixinho Doido

Há muito tempo atrás quando terminei minha primeira faculdade de Administração, tinha uma empresa de representação, uma namorada, um carro, acabara de me formar, ou seja, tinha tudo para começar uma vida boa, digamos padrão.
Depois que li este texto, repassado pela minha professora de comunicação, mudei totalmente minha vida. Vendi meu carro, peguei o dinheiro e me joguei no mundo em busca de experiências, deixei tudo que tinha para trás para viver o inesperado, o novo. Fui viajar o mundo por um ano e meio.
Procuro este texto há muito tempo e somente hoje achei na internet. Lendo-o agora novamente, me emociono ao ver que o vivi literalmente. Ele mudou minha vida e espero que também toque a de vocês e que novos peixinhos doidos nasçam pelo mundo e descubram que a vida pode ser muito mais do que achamos apenas vivendo como os outros.
Apenas lembrando e comparando com os pensamentos de Nietzsche, nos textos sobre Zaratustra, percebam que há muita semelhança entre eles.
O mais importante na vida é o querer.

Texto:

Era uma vez um peixinho que vivia em um aquário e, ele pensava que o aquário era o mundo. O pai, muito rico explorava as algas do fundo do aquário. A mãe era uma peixinha muito conhecida, por isso ele e os irmãos iam herdar as riquezas do pai.
Uma noite, ele acordou e perdeu o sono. Só que desta vez ao invés de ficar pensando na vida, resolveu dar uma volta e, então, descobriu que o mundo não era só um aquário; havia um rio que se perdia no infinito.
Ai o peixinho ficou muito grilado e acordou os irmãos para contar sua descoberta. Cada um achou uma coisa: o primeiro achou que ele estava com febre, o segundo que ele tinha bebido, o terceiro não achou nada, e o último achou que ele tinha ficado louco.
E contou pro pai (peixão preocupado) que conversou com a mãe (peixinha nervosa) e resolveram levar o filho a um peixiatra. Mas o peixiatra era daqueles que costumam jogar os livros na cabeça e no coração dos peixes; rapidamente achou que ele estava maluco mesmo, e o internou em uma clínica peixiátrica onde ele tomou muitos remédios para que continuasse a acreditar que o mundo era só um aquário mesmo.
O que é pior, ele quase acreditou que estava louco mesmo, mas conseguiu fugir da clinica e todas as noites ia namorar o mundo através do vidro.
Como era muito religioso resolveu procurar o grande sacerdote do aquário (peixão barbudo). Mas o sacerdote também sabia que o mundo não era só um aquário; não que ele tivesse visto, mas porque estava escrito em um daqueles velhos livros onde os sacerdotes aprendem coisas. Entretanto, por saber que todo aquele que pensa e sente de uma forma diferente dos outros pode sofrer muito, o sacerdote fez tudo para convencer o peixinho a desistir daquelas idéias; lhe ensinou um monte de rezas e lhe deu um terço cheio de conchinhas coloridas para que não pensasse mais nestas coisas. Aí o peixinho teve a sua segunda grande descoberta; não adiantava ficar no aquário reclamando dos outros; se ele não estava satisfeito, que fosse embora. Então, todas as noites, subia um pouquinho até que um dia, ficou deitadinho em cima do vidro olhando para frente e para trás. Quando olhava para trás pensava: este aquário é tão bom! Além do mais eu já sei quase tudo. Mas este rio me tenta porque eu não sei nada dele! De repente, Ploft! Até hoje não se sabe se pulou, se caiu, se escorregou e já estava do outro lado podendo ir ou voltar. Então, olhou para a mãe com a sacola do supermercado, o pai com sua pasta de homem importante, os irmãos indo para a escola e, se mandou...
O começo foi difícil. Ele foi aprendendo a se esconder, descobriu que ficar com raiva não era pecado mortal, como haviam lhe ensinado no aquário. Às vezes era preciso brigar, para sobreviver. Um dia ele fez um amigo e então se descobriram e seguiram a caminhada sem destino. Até que um dia o amigo olhou para um ponto da margem do rio e disse: vou ficar aqui, porque o meu objetivo era chegar até aqui. Mas o do peixinho não era; para falar a verdade ele não sabia o que era ter um objetivo. Aí descobriu que ia perder um amigo e ficou muito triste. Mas depois descobriu que ninguém perde ninguém; podia ser que um dia o amigo estivesse muito na sua frente, podia ser que ele, o peixinho voltasse. Podia ser tudo. Então como podia ser qualquer coisa, ele se foi.
Até que um dia ele encontrou uma peixinha. E, namoraram em cima dos corais, se descobriram e se foram. Até que uma noite a peixinha se fez bem bonita, botou vestido longo da cor das Águas e sentou-se em sua frente, olhando no fundo do seu olhar. Eles já se conheciam tanto que não precisavam mais das palavras para se dizer, e no silêncio ela lhe disse: - Sabe? Acho que a gente vai se separar, porque pelo menos hoje você é um poeta e eu sou uma peixinha; e o que eu queria é que a gente se casasse, que você comprasse tinta para eu pintar minhas escamas e fizéssemos uma casa bem bonita onde recebêssemos os amigos e pudéssemos criar nossos filhos. Mas se você ficasse porque eu estou pedindo sei que você seria um enfeite na minha sala. E o peixinho em silêncio disse: - Sabe? O que eu queria era que você seguisse comigo na viagem; podia ser que daqui a um segundo a gente se casasse e tivesse uma casa; mas se você fosse porque eu estou pedindo, será¡ que seria bom?E eles se separaram se amando.
E o peixinho chorou; descobriu que peixe que chora nem sempre é frágil, como lhe haviam ensinado no aquário; que às vezes é preciso chorar. E foi.
Até que um dia descobriu que o mundo não era só um rio, que o rio dava para o mar. No começo sentiu paz. Como é que peixe de Água doce vai viver na Água salgada? Enfim ele tinha chegado a um limite. Mas depois foi ficando tenso, e começou a estudar muito como ele era feito por dentro. Pesquisou, aprendeu até descobrir que as coisas podiam mudar, saltou para o meio do oceano.
Então, namorou a sereia, apaixonou-se por uma concha, brincou com a estrela do mar, e entrou na boca do tubarão, até que um dia descobriu que o mundo não era só Água. Havia o resto. Novamente paz! Como é que peixe vai viver no resto? Mas depois foi ficando novamente tenso, e começou a estudar como é que ele era feito por fora. Estudou, pesquisou muito, até que descobriu que poderia se transformar num passarinho.
Aí sentou-se em cima da nuvem, voou num raio de crepúsculo, bebeu uma taça de arco-íris, ganhou, perdeu, fez ninhos, desfez, até que um dia apaixonou-se por uma bolinha de sabão.
Ele vinha voando e ela vinha dançando, refratando a luz nas suas cores. Mas no momento que eles iam entrar um no outro, os dois tiveram medo. Cara, acho que não vai dar, porque eu tenho um dono; é um passarinho que vem me ver todos os anos, quando chegam às aves de arribação. Eu também estou com medo; afinal de contas também deixei uma peixinha no meio do caminho. Mas olhe só! Se minha peixinha ficou lá e o seu dono só vem daqui a um ano, porque a gente não pode namorar agora? Ah! Acontece que o peso dele eu já conheço e sei que quando ele entrar dentro de mim e eu dentro dele nós não vamos nos arrebentar. Mas eu não conheço o seu peso, nem você conhece o meu; pior que isto tenho muito medo que a gente se arrebente todo de tanta surpresa.E aí o peixinho e a bolha de sabão descobriram que, às vezes existe muito medo. E ele se foi.
Até que um dia descobriu que o mundo é muito maior que um planeta; novamente a paz. Como é que um peixe pode voar fora do planeta? Novamente tensão. E ele voltou a pesquisar muito, para saber como seria possível viver fora do mundo. Então fabricou uma roupa de aeronauta e pulou para o meio das estrelas.
Conversou com o sol, namorou com as estrelas cadentes, andou a cavalo num cometa, até que, um dia descobriu que era o rio, o aquário, a bolha de sabão, que era tudo. E viveu assim um segundo ou mil anos-luz, até que um dia sentiu uma enorme tensão, pois descobriu que ser tudo não é a última coisa. Então: Era uma vez um peixinho que morava num aquário e acordou assustado de tanto sonho!
O Peixinho Doido, de vez em quando, passa pela minha cabeça e pelo meu coração. Ele me conta que todo mundo é capaz de perceber suas passagens, mas como a maioria das pessoas vive muito ocupada com as suas ambições e com os seus sofrimentos, pouca gente se descobre.
Na última vez, ele me contou que sua viagem solitária lhe ensinou muito, mas agora ele está em busca de algo novo: ele quer companheiros. Mesmo sabendo que às vezes os peixes e as bolhas de sabão às vezes sentem medo!
Autor: Aluizio Collares

Seguem abaixo as sequencias do peixinho feitas por mim:

2) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/search?q=peixinho+doido

3) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/2010/03/peixinho-esquentado.html

4) http://ligadavirtude.blogspot.com.br/2010/04/peixinho-bobo.html

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Zaratustra – Nietzsche – Prólogo – Capítulo IV

Texto na Integra:
IV
Mas Zaratustra contemplava, admirado, a multidão e lhe falou assim:
“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo. Perigosa a travessia, perigoso o percurso, perigoso olhar para trás, perigoso o tremor e a paralisação.
A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.
Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem.
Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente, e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem.
Amo os que não se satisfazem em procurar além das estrelas uma razão para serem declínio e oferenda, mas que, ao contrário, se sacrificam a terra para que esta um dia se torne a terra do super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e quer conhecer para que um dia o super-homem viva. E quer assim o seu próprio declínio.
Amo o que trabalha e inventa para construir a morada do super-homem, e prepara para ele a terra, os animais e as plantas. Pois assim quer o seu declínio.
Amo o que ama a sua própria virtude, pois que a virtude é vontade de declínio e flecha do desejo. Amo o que não guarda para si nem uma só gota de seu espírito mas quer ser inteiramente o espírito de sua própria virtude. É dessa forma que ele, como espírito, atravessa a ponte.
Amo o que faz da virtude inclinação e destino, pois ele, por amor à sua virtude, quer viver ainda e não mais viver.
Amo o que não quer virtudes em demasia. Uma única virtude é mais virtude do que duas, pois ela é o nó mais forte onde se ata o destino.
Amo o que prodigaliza sua alma, e que, ao fazer isto, não visa á gratidão nem ao pagamento; pois sempre dá e nada quer em troca.
Amo o que se envergonha quando o dado cai a seu favor, e então pergunta: serei um trapaceiro? – pois é para sua ruína que ele quer se encaminhar.
Amo o que antecede com palavras de ouro os seus atos e sempre cumpre mais do que promete; pois ele quer o seu declínio.
Amo o que justifica os que serão e resgata os que foram; pois quer perecer por aqueles que são.
Amo aquele que pune seu Deus porque o ama; porquanto só poderá perecer pela cólera de seu Deus.
Amo o que, mesmo ferido, tem a alma profunda, e que um simples acaso pode fazer perecer. Assim, ele atravessa de bom grado a ponte.
Amo aquele cuja alma transborda e a tal ponto se esquece de si que todas as coisas nele encontram lugar. Assim, todas as coisas se tornam seu declínio.
Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo uma a uma da negra nuvem que paira sobre os homens; anunciam a chegada do raio e perecem como anunciadores.
Vede, sou o anunciador do raio, uma gota pesada dessa nuvem. Mas o raio se chama super-homem.”

Comentários:
Viva Nietzsche, viva.
Precisamos destruir este homem, eliminá-lo, decliná-lo, para posteriormente construir outro, sem esta moral dualista e que afasta o homem de seu eterno recomeço.
Temos que explicar melhor a intenção de Nietsche, ele fala o tempo inteiro em declínio, não de forma negativa, ele apenas quer desmoralizar o homem existente para depois criar algo novo. Este novo homem, chamado de super-homem, também não tem uma verdade uniforme, para o autor este homem depende apenas de suas vontades para atingir suas metas. Nietzsche não busca uma meta ou verdade, para ele o importante é o querer, a vontade individual de cada um, aonde vai chegar? Não importa, o homem é ponte, não meta. Não existem padrões, nem verdades absolutas.
O importante agora é que o homem não seguirá mais nenhuma moral ou verdade, ele será um ser em eterna transmutação, querendo sempre algo novo, criando sempre algo novo, este é o novo homem, o super-homem.

A criação de uma nova metafísica
O Deus de Zaratustra não é o Deus do sofrimento, da culpa, não é o Deus judaico-cristão.
O Deus do autor é o da vontade afirmativa e criativa, com vontade de crescimento, de potência, de expansão, de afirmação de si mesmo, da espontaneidade, um Deus sem intenções nem morais nem lógicas.
Vejam as diferenças, Nietzsche não era ateu, ele muda os adjetivos do Deus conhecido e propõe um novo, ele cria uma moral, não é amoral.