quarta-feira, 18 de maio de 2011

Verdades Absolutas

Acho interessante republicarmos alguns artigos do passado, pois as vezes os assuntos necessitam de mais profundidade ou reflexão. Publiquei este texto em dezembro de 2009 e como Marcela trouxe este tema novamente, resolvi continuar a discussão, apenas uma ressalva, acho que estava de mal humor quando escrevi, o que acham?

Publicado em Dez/2009:
Hoje vou escrever sobre algo que me atormenta há 1 semana. Aprendi que escrever é uma forma de aliviar as tensões e de refletir sobre as coisas que nos afligem no dia-dia.
Na semana passada tive uma briga com uma grande amiga e isto nunca é bom, discutimos sobre nós mesmos, nada de filosofia ou assuntos polêmicos, mas o que me afetou foi a forma com que ela terminou a discussão simplesmente dizendo para eu ficar com minhas verdades absolutas.
Verdades absolutas? Logo Eu. Gostaria, então, de falar um pouco sobre isto e tentar me defender desta acusação. Verdades absolutas dependem de algo absoluto. Acreditar em um criador ou Deus ou algo maior é sim acreditar em verdades absolutas. Ora, se existe um Deus existe alguma verdade ou razão para tudo isto existir, neste caso pessoas que acreditam em Deus devem necessariamente acreditar em verdades absolutas. Sendo assim, por favor, quem tem fé em Deus ou em algo absoluto e me diz que verdades absolutas não existem não está sendo coerente e fiel a suas idéias.
Pois é, eu não acredito em Deus, nem em algo maior, nem em nada absoluto, me considero agnóstico, portanto somente acredito naquilo que posso provar, ou seja, em mim mesmo, em minha própria existência. Como posso acreditar em verdades absolutas? Ou ainda mais, como posso ter verdades absolutas?
Depois de me analisar e de reler alguns de meus textos anteriores no blog comecei a perceber algumas afirmações que poderiam dar margem a interpretações errôneas por parte dos leitores, principalmente daqueles que não me conhecem muito.
Se vocês perceberem nestas leituras vão compreender que vários textos são contraditórios entre si, ou seja, afirmações feitas em alguns são rebatidas em outros. Comecei então a perceber que é justamente minha forma afirmativa de escrever que poderia sugerir tal interpretação.
Vamos discorrer um pouco sobre esta forma de escrever. Sou estudante de filosofia e, portanto, minha forma de escrever traz alguns traquejos de textos filosóficos e também científicos que adoro. Filosofia é uma ciência e como tal precisa estabelecer alguns elementos essenciais da ciência, que são teses, teorias, provas, experiências, observação, etc. Todos os filósofos e cientistas publicam suas obras de forma afirmativa, pois querem provar algo e para isto afirmavam suas idéias como verdades. Foi assim que o conhecimento humano se dissipou e evoluiu.
Apenas quando somos bastante afirmativos em nossas idéias é que despertamos o interesse da contradição. Engraçado, mas é assim mesmo que a filosofia, o conhecimento humano e a ciência evoluíram. A discordância entre as idéias desenvolveu e aprofundou o conhecimento, os debatedores defendiam suas idéias, não a mudaram através destes debates, porém a exposição destas, as fizeram serem postas a prova da contradição e assim as fortaleceram.
Vejam como exemplo: se colocássemos duas pessoas para debater sobre o governo Lula, uma petista e outra do PSDB teríamos um debate acalorado, e bastante rico em argumentos, provavelmente nenhum dos 2 mudaria suas idéias, mas alguém que estivesse assistindo ou lendo este debate poderia tirar várias conclusões e opiniões sobre isto. Ao contrário se tivéssemos um debate morno com pessoas, digamos “equilibradas”, com opiniões muito pautadas, não teríamos divergências ou diferenças exarcerbadas de idéias. O que quero dizer é que os extremos são importantes no estabelecimento e desenvolvimento do conhecimento humano.
Todos os grandes pensadores, filósofos e cientistas na história humana foram bastante afirmativos em suas idéias, as defenderam com unhas e dentes e eram também presunçosos, orgulhosos e arrogantes. Com isto, despertaram outras idéias e opiniões e ajudaram, cada um de sua forma, ao desenvolvimento do conhecimento humano. Como exemplo temos Platão, Aristóteles, Nietzsche, Isaac Newton, Maomé e o próprio Jesus Cristo. Para eles, suas idéias eram verdades absolutas e eles mudaram o mundo.
Portanto, não se deixem levar pelo modismo de serem maleáveis e bonzinhos. Sejam sim coerente com suas idéias e doa a quem doer sejam afirmativos, pois somente assim irão gerar as discussões e debates necessários para criar algo novo e evoluir o mundo a sua volta. Acreditem, qualquer um de nós pode mudar o mundo, todos temos este poder e esta força.
Não tenho nenhuma verdade absoluta, pois não acredito nisto, mas escrevo e debato minhas idéias como se as tivesse, assim como fizeram todos os grandes homens que nos antecederam. Quero estimular o debate sempre pautado em idéias, não em coisas ou pessoas. Com isto procuro desenvolver meus pensamentos e das pessoas que me cercam para que, quem sabe, um dia, alguém possa pensar, criar e desenvolver algo novo que vá mudar a vida de todos e serem lembrados pela eternidade. Que a diversidade de opiniões prospere.
Sejamos arrogantes e presunçosos, por favor.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Reflexões, Verdades e Realidades


A existência de verdades absolutas não era um tema o qual me despertasse dúvidas, tinha certeza de que verdades seriam sempre relativa. Contudo, deparei-me com a seguinte afirmação de Aldo Vannucchi: "A verdade é sempre absoluta: existe ou não existe. Relativo é o conhecimento que ajuntamos dos fatos, situações e idéias, conhecimento mais ou menos preciso, mais ou menos completo, dependendo de um sem número de circunstâncias."


Minha certeza virou fumaça...


Através do pensamento "criamos" idéias e opiniões, julgamos e concluímos. Tudo que envolve o pensamento, conhecimento, memórias e experiências, tudo aquilo que o pensamento agrupou resulta na realidade do indivíduo, sendo esta um produto de interação e reação. Estes elementos compõem nossa realidade individual e realidade nada tem haver com verdade.

A realidade depende do homem e da sua maneira de enxergar e entender o mundo. A verdade não depende do homem. A verdade existe, nós a conhecemos ou não. Ela é maior que todos os homens e suas realidades. Aquilo que pensamos e acreditamos ser real de fato é, ao menos para nós, mas não é necessariamente verdade.

Eis a problemática mais complexa: como saber o que é verdade?

Filósofos colocam que a verdade é revelada ou intuída a partir de evidências objetivas ou raciocínio claro e correto de um homem mentalmente saudável. Voltamos, assim, ao homem e sua incurável inclinação ao engano, tendo a responsabilidade de julgar a verdade.

Nesta difícil missão, estamos constantemente incorrendo o erro, o engano. Enganamo-nos quando confundimos verdade com utilidade prática e tomamos por verdadeiro aquilo que nos interessa ou melhor convém. Enganamo-nos quando consideramos verdade uma afirmação proferida por uma autoridade (grande filósofo, psicanalista, professor, pais etc), critério válido mas passível de engano como outros. O consenso geral é outro critério que nos leva ao engano. Aquilo que é sustentado por muitos como verdade passa a não mais ser questionável. Compreendendo estas variáveis podemos questionar possíveis verdades nas quais acreditamos e que se enquadram nestes critérios, entretanto, a verdade continua difícil de ser definida.

Nietzsche coloca que nenhuma expressão da língua contém verdade, pois a língua reporta-se a termos criados pelo homem através de interpretações arbitrárias. Se definimos que a pedra é dura, este é o resultado da percepção humana, diferenciada da percepção de outras espécies e não mais correta nem mais íntima da verdade. Do mesmo modo, ao criarmos o conceito de mamífero e, após avaliação de um camelo, concluimos tratar-se de um mamífero, surge neste ponto a repetição de uma verdade criada pelo homem, dependente dele e que, afinal, nada tem haver com verdade. Apenas conceitos.

Diante deste quadro, chego a acreditar que a verdade não nos cabe, apesar de sua busca fazer parte da natureza humana. Vamos, então, discutir idéias e opiniões, observar e tentar entender diferentes realidades, criar julgamentos, mas deixemos a verdade para o universo, pois onde quer que ela esteja, certamente não está nos homens. Ninguém é mesmo dono da verdade.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Casamento Real – Fantasia coletiva

Estamos assistindo o ultimo suspiro desta celebração milenar, será o ultimo casamento importante da história humana. Casamento não faz e não fará mais parte do cotidiano humano, isto é positivo? É negativo? Vamos por partes.
Quando estudamos a história da união humana entre um homem e uma mulher, o casamento, percebemos que suas bases não têm mais sustentação. Suas causas não permaneceram durante os séculos e está afetando há décadas esta união.
Porque as pessoas se uniam em família? Primeiramente porque a mulher não era capaz de cuidar sozinha de sua cria por 10 anos seguidos (tempo médio de proteção para a prole humana), então buscava no convívio social a segurança e suporte necessário para sua sobrevivência. Temos vários exemplos de tribos indígenas que não tinham parceiras fixas, ou famílias, estas uniões começaram com a convivência com os povos europeus. Portanto não nascemos com o dever ou compromisso natural para viver em família, para mim isto é bem claro, podemos criar nossos filhos com ajuda de outros membros da sociedade e não somente com a mãe ou o pai deles.
O casamento foi criado para transferências de patrimônio através das crias, seu inicio decorre do começo da divisão humana em sociedade e do estabelecimento da propriedade privada. Com isto bens que eram públicos passaram a ser privados ou individuais, portanto precisavam ser preservados e consequentemente herdados. A função básica, do casamento, neste início, era gerar herdeiros e uniões onde seriam preservados os patrimônios familiares, percebemos isto ainda hoje em várias sociedades orientais. A mulher era uma mera mercadoria, ela apenas servia de troca ou de contrapartida para que as heranças fossem transferidas para a próxima geração.
Não existiam sentimentos envolvidos no casamento, ninguém, ou quase ninguém, casava-se por amor, por carinho, por paixão ou por qualquer outro sentimento. É difícil pensarmos assim hoje, mas as sociedades não valorizavam isto. Já falei antes aqui no blog, o sentimento de amor entre um homem e uma mulher começou com o romantismo europeu, não temos literatura de “Amor” antes deste período na história humana. Pessoas se uniam para procriar e para transferir e manter seus pertences.
Casamento era uma imposição social, quem não era casado não participava de festas, comemorações e baquetes, o casamento era uma instituição básica da sociedade e por isto quem não era casado não participa dela.
Um ser sem obrigações e livre era perigoso demais para a ordem vigente na época, um ser sem família podia fazer qualquer coisa, uma revolta, questionar leis, impor vontades, criar uma revolução, duvidar de Deus, ele simplesmente não tinha com o quer se preocupar, por isto até hoje são os jovens que iniciam as revoltas, eles não tem família para se preocupar, são livres para arriscar suas vidas e não têm nada a perder. Que perigo para a classe dominante. Por isto a religião estimulou e estimula à família, um ser familiar é um ser mais fácil de domar, mais fácil de convencimento, mais propenso a aceitar a ordem vigente das coisas, pois sua maior prioridade é a sobrevivência da prole. Ele não podia se revoltar contra nada.
A religião se utilizou desta ferramenta de opressão das vontades individuais em nome da família por séculos e ainda usa hoje, incrível como não percebemos isto. Quem disse que a família é importante: Deus? A sociedade? Seus amigos? Sua família? Pode até ser, mas não foi você com certeza, não foi por vontade própria que escolhemos este caminho, foi por imposição social, poderíamos ter filhos sem uniões conjugais, poderíamos fazer quase tudo em nossas vidas sem casamento, como sempre fizemos antes na história humana. Filhos não são consequências de casamentos bem sucedidos, isto também foi inserido em nós pela sociedade e pela religião. Também nossa velhice, muitos colocam no casamento aquela sensação de não envelhecer sozinhos, mas temos nossos amigos, temos toda a sociedade a nossa volta com todos seus recursos, sejam gratuitos ou não. No Japão as pessoas são respeitadas e convivem bem com sua comunidade até a morte, são importantes e tem funções até o fim.
Alguém poderia dizer que a razão mudou, agora casa-se por amor, neste caso temos um problema, amor é algo com várias definições e muito volátil. Se realmente os casamentos, de agora em diante, forem baseados no amor, então serão breves e com bastantes turbulências. Poucos serão capazes de mantê-lo por muito tempo. Amor não gera compromisso, gera conveniência, podemos amar vários parceiros numa vida, e portanto o casamento “para sempre” será cada vez mais raro.
Não quero acabar com o casamento, ele já acabou, as bases para sua sobrevivência vem sendo derrubadas há séculos e afirmo que atingiu seu ápice neste ponto, no casamento real inglês. Começaremos a ver uma diminuição destas uniões e consequentemente o fim delas no futuro. Não precisamos mais de uma família para transferir heranças, as mulheres já trabalham e tem condições de viverem sem os homens, alias não precisam deles nem mais para procriar. O dinheiro traz segurança nas sociedades moderna, ou seja, mulheres não precisam mais de homens para cuidar da prole, casamento não é mais uma imposição social, ele é agora apenas fantasia no imaginário popular, como o teatro, alias todo este casamento inglês não parece um teatro, tudo tão ensaiado e lindo, palco, atores, segurança, roupas, pacote completo.
Viva a fantasia teatral do casamento, somente assim mesmo para lembrarmos daquele tempo remoto e perceber que não precisamos mais dele. Viva os relacionamentos sinceros, cheios de paixão e que não vivem num mundo fantasioso, o mundo real é bem mais complicado. Sem amarras, os relacionamentos precisarão se reinventar a cada momento, desafios a cada dia e um parceiro para reconquistar a cada instante.
Bem vindo ao mundo real

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Homem: bom ou mal?

Como o texto anterior de Marcela me fez pensar muito. Percebi que meu comentário ficaria grande demais, então resolvi escrever outro artigo.
O que é bom? O que é mal? Estes conceitos foram estabelecidos em nossa sociedade no início do cristianismo. Não existia o conceito de bom ou mal antes de cristo, ou não existia um padrão, o homem fazia o que deveria ser feito dependendo da ocasião, portanto o bem ou o mal não existem, são criações da sociedade, imposto principalmente pela religião para controlar o aumento de população nas cidades e nos conglomerados urbanos. Assim estabelecemos a moralidade. No último livro lido aqui na Liga, Cachorros de Palha, o autor nos mostrou bem isto, deem uma olhada: http://ligadavirtude.blogspot.com/2010/09/cachorros-de-palha-3-capitulo-os-vicios_29.html
Nietzsche, também, relatou brilhantemente este fato em Zaratustra, também bastante comentado em textos passados aqui da Liga, então esqueça estes padrões morais.
Tirando isto, nos sobra uma constatação: que o homem é capaz de qualquer coisa, assim como qualquer outro animal, e não tem problema nenhum nisto, todos os seres vivos são capazes de qualquer coisa para sobreviver. É uma lei natural, portanto como pode estar errada?
Volto a tocar neste ponto, somos produto do meio e o meio determina nosso comportamento. Já matamos e continuamos a matar crianças, na China (quando nascem mulheres), na Costa do Marfim e Ruanda (guerras étnicas) ou em qualquer outro lugar. O homem mata sim e quem disse que isto é mal? O que quero dizer é que não existe padrão para certo ou errado, matar para sobreviver é errado? Tudo depende do referencial e este julgamento é temporal e transitório, muda-se de tempos em tempos.
Quanto ao episódio do Rio de Janeiro, não venham inventar mentiras ou calúnias contra o rapaz, é obvio que seus motivos foram absurdos, o ponto não é este. Ele fez o que achou certo em seu referencial de vida, não me parece que tinha nenhum problema mental. Ficamos procurando problemas mentais nas pessoas que fazem as coisas diferentes para não enxergar uma verdade: todos nós poderíamos ter feito aquilo dependendo da ocasião ou do referencial cultural inserido.
A sociedade estabelece alguns referenciais e devemos ser punidos quando caminhamos contra, assim ordena-se uma sociedade através das leis. A vontade individual não pode ir contra a social quando interfere na liberdade de outro membro desta. Emmanuel Kant nos mostrou bem isto.
Não podemos ser ordenados por moral, brigo sempre contra este conceito, devemos ser cobrados pelas leis estabelecidades em cada sociedade, logo um ser totalmente amoral (não sei bem se é possível isto) pode ser um cidadão brilhante, ele deve ser cobrado pelo seu deveres e não por sua religião ou qualquer outro conceito moral.
Portanto, vamos esquecer religião, moral, problemas mentais, diabo, Deus e pensar em como nossa sociedade tem nos tratado, como nosso comportamento é determinado por ela, ela deve procurar suas respostas dentro dela mesma. Não se excluam colegas cidadãos.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Sombra e A Maldade

Quando já certa de que nenhum ato cometido por seres humanos poderia chocar-me, sou surpreendida por imagens perturbadoras de crueldade. Não me refiro ao, tão explorado pela mídia, massacre de Realengo, mas a tantas outras cenas de violência que assistimos quase diariamente nos telejornais. Cenas estas que nos fazem pensar como o homem é mau. Será essa maldade natural ao ser humano? Se olharmos a história da humanidade, escrita sobre sangue e cadáveres, teremos certeza que sim. Por outro lado, sabemos de histórias sobre pessoas capazes de sacrifícios para ajudar outras em situações críticas (a exemplo dos brasileiros que viajaram horas de carro para levar água, comida e auxílio aos japoneses mais atingidos pela tragédia recente). Então o ser humano pode ser bom.

No caso do assassino de Realengo, há o atenuante do transtorno mental, o que não ocorre com os policiais que torturaram e friamente atiraram à queima roupa em um adolescente de 14 anos indefeso. Atiraram por 4 vezes no tórax do menino que teimou em não cair e insistiu em continuar vivo. Então o ser humano pode ser mau? Sim, infinitamente cruel. E a insanidade muitas vezes não justifica a maldade. Somos seres muito complexos, repletos de dualismos. Possuímos bondade e maldade naturais em nossa personalidade, entre outras características aparentes ou não. Desde pequenos somos “moldados” para reagirmos da maneira esperada e para assumirmos personalidades que atendam as expectativas sociais. Deste modo, ocultamos, de maneira inconsciente, sentimentos que consideramos inapropriados e, assim, é formada a chamada sombra. A sombra é, de maneira geral, um segredo que guardamos de nós mesmos e do mundo, aspectos inconscientes de nossas vidas e personalidades, mas que em algum momento manifestam-se. Momentos de descontrole nos quais falamos e fazemos coisas, nas quais não nos reconhecemos, geralmente, são manifestações da sombra.

A maldade existe em todos nós, só que suprimimos suas manifestações de maneira consciente ou inconsciente, por medo das consequências do ato ou pelo desejo de sermos virtuosos. Contudo, algumas pessoas, por razões diversas internas e/ou externas, deixam-se tomar pelo prazer da maldade e ainda encontram justificativas para seus atos. Guerras, massacres, roubos, homicídios, entre outros, são sempre justificáveis por aqueles que os cometem.

Todos, em algum momento da vida, descobrem que não são tão bons quanto pensavam (ou tão maus). Negar a existência da maldade em nós não nos ajuda a lidar com ela, precisamos descobrir e aceitar que somos seres dotados de maldade e bondade, e que podemos, em sã consciência, escolher qual predominará em nossas vidas. Não podemos nos desfazer de nossas sombras mas, ao tomarmos conhecimento dela, podemos escolher o que manter sob seu véu.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O PAI DO HOMEM

Todos sabem que não gosto de publicar textos de não membros do blog, mas achei bastante interessante este e deixa para discussão.

Depois de ler o que pude, ouvir o rádio e ver a TV, peguei meu carro, era dia de folga, jornalista folga de quinta-feira, fui até a oficina, vi os dois Weber que colocaram no Meianov, ligamos o carro, o motor ficou com um ronco legal, depois descemos lá onde eles fazem funilaria e pintura, a peruinha já está toda raspada, sem motor, descobrimos a cor original. Descobrir a cor original de um carro de 55 anos é algo emocionante para quem gosta deles, dos carros. Foi arrancar o forro do teto e lá estava o azul, Azul Firenze, segundo o amigo das cores, intocada a pintura, uma coisa bacana, ajuda muito na restauração, mesmo que o Azul Firenze não seja lindo, eu tinha a ideia de fazer creme e vinho, ou branco Lotus e azul-marinho. Mas ela era azul, ora bolas, e se nasceu assim, que continue assim. Acho que será azul, e também encontrei o número do chassi, é umas das únicas 173 fabricadas em 1956, creio que o mais correto seja mesmo fazê-la como era quando saiu da fábrica e tal.
Depois fui ao centro da cidade, com um trânsito curiosamente bom, atrás de um emblema e de umas calotas, o trânsito curiosamente bom.
As irrelevâncias nos movem. Tudo que fiz hoje foi irrelevante, ver uns carburadores, descobrir uma cor, procurar uns emblemas e umas calotas. Foi tudo que consegui fazer. Mergulhar na irrelevância e na indiferença.
O rapaz que entrou na escola atirando não se encaixa em nenhum perfil que permita esbravejar. Até onde se sabe, não era traficante, ladrão, fugitivo. Não era militante de nenhum partido, não lutava jiu-jítsu, não era um skinhead, não pertencia a nenhuma torcida organizada. Até onde se sabe, não usava drogas, não bebia, não era pedófilo, não era evangélico, não era muçulmano, não era judeu, não era cristão, não era xiita, não era sunita, não tirava racha na rua, não tinha suásticas tatuadas na pele, não pertencia a nenhuma seita, não era gótico, não era punk, não ouvia Bossa Nova, não usava piercing, não era rico, não era pobre, não era gordo, não era magro, não estava em liberdade condicional, não tinha passagem pela polícia, não vivia no Complexo do Alemão, não era do Jardim Ângela, não morava numa cobertura da Vieira Souto, não era nada. Segundo sua irmã, ele era estranho.
Estranho.
Seu nome era Wellington de Oliveira, um nome bem brasileiro, há milhares de Wellingtons, Washingtons, Andersons. O Brasil tem um estranho fascínio por W e por nomes que terminam em “on”. Wanderson, Jackson, Jobson, Richarlyson. Ele era um Wellington de Oliveira.
Quando não se pode culpar traficantes, fugitivos, ladrões, militantes, lutadores, skinheads, nazistas, torcedores organizados, drogados, cristãos, bêbados, pedófilos, muçulmanos, góticos, magros, evangélicos, rachadores, punks, gordos, xiitas, ricos, pobres, nem o prefeito, nem o governador, nem a presidenta, nem o ministro, nem o secretário, nem a polícia, nem o senador, nem o deputado, nem a diretora da escola, nem o médico, nem o professor, culpamos quem?
Culpamos quem?
Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos. Uma espécie fracassada, violenta, agressiva, condenada à extinção. Uma espécie habituada à barbárie, e que não se imagine que “nos transformamos em”. Sempre fomos assim, indecentes, obscenos, há séculos nos matando em guerras, inquisições, pogroms, chacinas, massacres, genocídios, atropelamentos, assassinatos, latrocínios, torturas, execuções. E pragas, pestes, terremotos, incêndios, tsunamis, deslizamentos, enchentes. Um moto-contínuo de mortes, mortes, mortes, e vinganças, vinganças, vinganças, ódio.
A criança é o pai do homem. Guardo um pequeno cartão com essa frase no meu carro, há anos está lá, era o convite da formatura do meu mais velho no pré-primário. Não o guardo como mantra ou guia espiritual. Está lá porque está lá, porque o carro que nos levou à formatura do pré ainda está comigo, e lá ficaram o cartão e a frase. De vez em quando uso o cartão, de papel de alta gramatura, cartolina, talvez, porque quando o vidro sobe levanta uma rebarba da forração da porta, e o cartão serve para colocar a forração no lugar. É um uso banal, irrelevante, coloco o cartão entre o vidro e a forração da porta, e tudo fica no lugar, tudo volta ao seu lugar. Um uso banal e irrelevante, mas que me faz ler essa frase todos os dias, ou, pelo menos, quando preciso colocar a forração da porta no lugar.
A criança é o pai do homem.
Wellington ajudou a nos matar mais um pouco hoje. É um erro, Wellington, matar-nos aos poucos. Da próxima vez, Wellington, mate-nos a nós, direto, sem intermediários.
Mate o homem, Wellington, não seus pais.
http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/2011/04/07/o-pai-do-homem/
Flávio Gomes

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Existe mesmo empresa privada no Brasil?

A pergunta poderia ser outra: existe alguma empresa verdadeiramente independente do estado no Brasil.
Parece que para uma empresa crescer, se desenvolver e criar notoriedade em algum momento ela precisará das mãos do estado brasileiro e assim entrar na cúpula do poder. Em algum instante precisará de um financiamento do BNDES, ou um terreno novo, ou uma liberação especial ou autorização para funcionar, tudo perfeitamente legal, não é? Conhecemos bem nosso país.
A burocracia estatal serve seus fins, o de engessar a todos e demonstrar que ninguém é verdadeiramente livre no país, quem manda são os políticos e mais ninguém. E a eles devemos favores, muitos deles.
Agora acordamos com uma notícia totalmente absurda para um país que se acha democrático e de livre iniciativa: Guido Mantega consegue, finalmente, tirar Roger Agnelli da presidência da Vale. Ora bolas como um ministro de estado pode ter tanto poder e influenciar o que acontece nos bastidores de uma empresa privada. Uma pergunta surge logo a minha mente, a Vale é mesmo privada?
Detectamos, neste caso, um erro tremendo nas privatizações do governo FHC, permitiram que fundos de pensão de empresa estatais participassem e com isto, de certa forma, estas empresas continuam indiretamente ligadas ao estado.
Como vamos criar um ambiente de competitividade desta forma? Dilma deu um grande passo para traz. Vinha admirando suas primeiras atitudes e coragem, coisa que faltou no ultimo governo, mas bastou encontrar novamente o Deus “Lula” que tudo desandou.
E os empresários? Devido à falta de independência do estado, ficam calados, assistindo a tudo de longe.
Não consigo ver luz no fim deste tunel e olha que venho tentando a bastante tempo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sobre Amor e Paixão

O que é o amor? Certamente, a grande maioria das pessoas tem uma resposta para esta pergunta baseada em experiências pessoais e idéias próprias. Mas o que dizem os especialista a respeito deste assunto? (Sim, existem muitos estudiosos sobre o amor e a paixão além de experimentos científicos para auxiliar no desvendar destes sentimentos).
Buscando respostas, encontrei contradições e deparei-me com a inexistência de um consenso. Inclusive, há pesquisadores que tratam amor e paixão como um mesmo sentimento. Particularmente, descordo desta idéia.
A paixão é o resultado de uma "descompensação" de neurotransmissores: elevação de dopamina e/ou noradrenalina (responsáveis pela excitação - todos os principais vícios estão associados com elevação de dopamina) e redução da serotonina ( neurotransmissor do prazer). A porção do cérebro responsável pelo desejo de recompensa é ativado, por isso, a pessoa apaixonada torna-se obcessiva por sua recompensa (aquela pessoa que eleva seus níveis de serotonina). Por esta razão, a paixão é tratada também como uma obsessão por alguns autores.
Um estudo visando avaliar o cérebro dos apaixonados, comparou as atividades cerebrais de pessoas saudáveis que não estavam apaixonadas, apaixonados confessos e pacientes portadores de transtorno obsessivo-compulsivo, e descobriram que os dois últimos grupos apresentam alterações semelhantes na atividade cerebral.
Apesar da definição não ser consenso, todos concordam que a paixão tem prazo de validade (por volta de 2 anos), que é responsável pelo distanciamento da razão e turvação da visão, pois, só quando a euforia da paixão abranda o (ex)apaixonado consegue realmente enxergar o outro. Quem nunca ouviu: "ele(a) não era assim quando o/a conheci"? Não se encontra controvérsias, também, quanto à paixão ser involuntária e incontrolável.
Para os estudiosos que separam esses sentimentos, só após o fim da paixão pode surgir amor verdadeiro mas este não depende de paixão prévia para acontecer. Outras divergências surgem quanto ao caráter volitivo ou involuntário do amor. Para alguns, o amor é uma escolha inconsciente pois, por mais que se identifique algo no jeito de ser, de sorrir ou na aparência do amado que agrade, nada disto explica a origem do amor. Outros autores assumem que o amor é uma escolha consciente, reunindo razão e emoção.Contudo, esta visão limita-se aos casais que, após o fim da paixão, decidem construir o amor, não abrangendo o amor que surge sem o estágio da paixão.
A paixão é um evento fadado ao fracasso. Uma fixação por um ser perfeito criado pela ilusão romântica e com prazo para expirar. Alguns autores afirmam tratar-se de um instinto natural humano na busca de parceiros para a cópula e manutenção da espécie, tendo em vista os estímulos sexuais intensos provocados por uma paixão.
O amor não nos priva da razão nem da visão plena, talvez aí esteja o segredo de sua maior longevidade. Conhecemos os defeitos do outro (e ainda assim amamos), não somos enganados pela fantasia de perfeição, não há o desejo de fundir dois seres em um (uma das maiores frustações dos apaixonados) pois olhamos o outro em sua individualidade e encontramos razões para amá-lo (mesmo que não justifiquem o surgimento do amor).
Acredito que a razão nos permite selecionar critérios mínimos para nos interessarmos por alguém mas o amor não depende só disso. Mesmo sem a euforia e a obsessão da paixão, o amor também tem a sua química, a química, ainda misteriosa, da compatibilidade. Dentre muitas explicações relativas ao amor e à paixão, não é possível encontrar nenhuma que ajude a entender porque uma pessoa é a "escolhida" entre tantas outras. Muitas pessoas podem atender aos nossos critérios racionais de escolha de parceiros, contudo, só aquela pessoa desperta a vontade persistente de estar perto e mesmo certos de que podemos viver bem sem sua presença, a certeza é de que a vida pode ser bem melhor ao seu lado. Ainda não há explicação para esta escolha.
Concordo com a teoria do amor involuntário, assim como a paixão, mas ao assumirmos o amor podemos deixar de ser objetos para nos tornarmos sujeitos de nossas histórias.
"...o amor é indissociável de um certo não-saber. Apresenta-se como um enigma e nunca se deixa decifrar totalmente." - Betty Milan

segunda-feira, 21 de março de 2011

Desastres Naturais

Bastou acontecer mais um desastre natural para os supersticiosos, religiosos, lunáticos, conspiracionistas e todo tipo de crendice aparecer para tentar arrematar seguidores pelo mundo a fora. É impressionante como muitos acreditam, chocados pelas imagens, pois não conseguem explicar o acontecido.
Vamos separar um pouco as coisas e tentar analisar os fatos sem emoção e sem perplexidade.
Primeiramente, vamos acabar de vez com a ideia de ação divina, ora bolas, que mal o Japão fez para alguém. Um país de paz, onde mora um povo extremamente humilde, trabalhador, honesto e também bastante religioso. Não sei se os religiosos conseguirão encontrar motivos divinos para uma tragédia ao povo japonês, mas lanço o desafio.
Descartada esta primeira hipótese, vamos à segunda: Aquecimento Global e reação da natureza a ação humana. Sou partidário da causa, sempre fui, sou sócio do Greenpeace e do WWF Foundation, no entanto não vamos colocar as coisas de forma irresponsável e fora de propósito. Terremotos são causados por movimentos nas placas tectônicas que movem-se desde que a terra foi formada a 5 bilhões de anos atrás. Gostaria que algum espertinho ou algum cientista possa estabelecer uma relação entre ação humana e aquecimento global a movimentação anormal das placas tectônicas. Esta teoria eu gostaria de ouvir por ai.
Terceira e que será bastante proferida nos próximos dias será a do fim do mundo, seria o começo das previsões Maias e etc., etc. e etc. 2012 vem aí, dirão outros. Bem, esta prefiro nem me aprofundar muito, digo apenas o seguinte: se existe mesmo destino escrito e que tudo não passa de uma novela orquestrada por Deus, ele é um bom de um sacana. Como pôde criar o mundo, e ter tanto trabalho para determinar tudo, escrever cada detalhe e, ainda, planejar seu fim. Neste caso, Deus que me perdoe, mas foi tudo uma tremenda sacanagem divina.
Prefiro não acreditar em nenhum dos absurdos acima e apenas dizer que a terra está em movimento, tudo na natureza sempre esteve e sempre estará em constantes mudanças e acomodações, portanto aguardem os próximos episódios trágicos, é só uma questão de tempo.
Se esqueci de alguma outra teoria, favor relembrá-la abaixo.

Quase ia me esquecendo, minhas sinceras condolências ao povo japonês que admiro muito.

Precisamos mesmo de Paz?

Esta palavra tem me intrigado há tempos, sempre me perguntei pelo seu significado, principalmente quando alguém deseja “Paz” à outra pessoa. Podem apostar, as respostas são bastante variadas quando insisto na definição. Acho que no fundo a palavra “Paz” virou um modismo e as pessoas não sabem seu verdadeiro sentido, e pior, suas consequências.
Não encontramos “Paz” em nada em nossas vidas, não temos paz quando nascemos, não temos paz quando choramos por comida, quando ouvimos milhões de “nãos” dos nossos pais, quando temos que lutar pelo nosso espaço num grupo, seja pessoal ou profissional. Então, ora bolas, porque almejamos tanto isto, já que não faz parte de nossas vidas. Eu somente consigo encontrar alguma definição: na morte. “Paz” nada mais significa que “vazio” e este somente podemos encontrar quando morremos. Uma explicação para este desejo poderia sugerir nossa eterna insatisfação, nosso desejo de querer sempre aquilo que não temos. Poderia ser também por acomodação. Pensando bem, será que desejamos a morte? Bom tema para um próximo artigo, ah como me divirto escrevendo. Sei lá, deixo a pergunta no ar.
Desculpem aos que adoram esta palavra, mas na verdade ela não existe, não existe uma definição adequada para ela que possa ser provada. Digo isto porque não existe em nosso estado psicológico, não faz parte do intelecto humano, nem da natureza humana. Alguém poderia dizer que a meditação é um estado de Paz, entretanto eu diria que é um estado de guerra. Quando meditamos estamos tentando paralisar nossas inquietudes, nossos desejos, nossos conflitos internos e isto é lutar arduamente contra nossa natureza. Dito isto, vou mais longe: se não temos este estado natural, então é porque não precisamos dele.
Vivemos numa eterna luta pela sobrevivência, alias todos os seres vivos, então a Paz nos mataria aos poucos, nos deixaria num estado de desatenção que poderia ser fatal, por isto ela foi excluída de nossas qualidades, já que não constitui num diferencial de sobrevivência. Não poderíamos enxergar novos horizontes com ela, não desenvolveríamos novas habilidades, nem buscaríamos alcançar sonhos. A Paz simplesmente nos paralisaria. Ela nos empobrece, nos deixa sem rumo, sem meta, sem sonhos.
Sem brigas, sem buscas, sem guerras, não seríamos nós mesmos, não teríamos identidade, seríamos mais um ao vento dos outros. Todo o tempo precisamos nos afirmar perante o próximo, este conflito faz parte do convívio humano em sociedade e é importante nas relações sociais. O conflito cria espaço, move montanhas, realiza sonhos e também constrói novos mundos e novas sociedades.
Desculpe os “pró-paz”, mas não teríamos chegado até aqui com ela. Foi através de conflitos e guerras que nos desenvolvemos. Guerras trouxeram tecnologia, saúde, riqueza e também nosso bem maior que é a liberdade. No fundo toda guerra ambiciona liberdade, seja ela boa ou ruim, o referencial será sempre do vencedor. Liberdade jamais será conquista com Paz. Vocês preferem viver em Paz, sobre controle, ou em batalhas buscando a liberdade? Pensem um pouquinho nisto.
Dito isto, chego onde desejava, as guerras são imprescindíveis para a manutenção do mundo livre, justo e fraterno que alcançamos em algumas partes do globo. Se pregarmos demasiadamente a Paz, poderemos ser tomados pelos que querem alterar o status quo e estes últimos estarão muito mais preparados. A mudança nem sempre é boa, muitas vezes voltamos no tempo e regredimos com ela.
Devemos lutar pelos nossos ideais, sem esta meta perderemos qualquer tentativa de realização, triunfo e felicidade em nossas vidas. Então, por favor, não se desejem paz, nem agora, nem no ano novo, nem em vossos aniversários. Precisamos é de força, coragem e paixão (adoro esta palavra). Deveríamos desejar batalhas para que possamos testar nossos limites e nos superarmos, só assim estaremos crescendo e reinventando nossas vidas, nossas metas e nossos sonhos.
Boa guerra para você também.